Apesar da indefinição sobre o candidato da direita que irá disputar a corrida presidencial deste ano, o desenho que começa a se formar é de mais uma eleição polarizada entre o lulismo e o bolsonarismo, com o terreno político ainda pouco fértil para o crescimento de uma candidatura moderada.
Enquanto o presidente Lula sinaliza que irá mesmo tentar a reeleição, os partidos da direita e da centro-direita tentam viabilizar nomes que possam ser competitivos, como os dos governadores de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), do Paraná, Ratinho Júnior (PSD), de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), e de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil).
Jair Bolsonaro manifestou em carta o apoio a seu filho 01, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), mas o movimento ainda é visto com desconfiança. Há, no meio político, muita gente apostando que se trata de uma jogada para valorizar o “passe” do clã – uma forma de, mais adiante, poder negociar o apoio a qualquer outro candidato em melhores condições.
Qualquer que tenha sido a intenção, o lançamento de Flávio Bolsonaro parece ter funcionado. Os demais nomes, que precisam do apoio do ex-presidente para serem competitivos, acabaram tendo mais um embaraço pela frente.
“O que parecia nas primeiras semanas, nos primeiros dias, um enorme devaneio, um golpe contra Tarcísio e contra os governadores, quando apareceram as primeiras pesquisas, colocando Flávio acima de 20 pontos, mudou tudo. Alguns diziam que ele era rejeitado e que era inexperiente, mas com 20 pontos ele tem alta probabilidade de ir para o segundo turno”, diz o cientista político Jairo Nicolau, especialista em sistemas eleitorais, pesquisador do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e professor da FGV (Fundação Getúlio Vargas).
“Qualquer outro nome terá que fazer um esforço danado para ultrapassar Flávio hoje”, prevê Nicolau.
Peso eleitoral
O peso do sobrenome Bolsonaro é sentido no governo e no entorno de Lula. Ao analisarem as pesquisas já divulgadas e os monitoramentos contínuos de intenção de votos, interlocutores do Planalto avaliam que o filho do ex-presidente vem se viabilizando como herdeiro de seu capital político. Eles comemoram, porém, o fato de Lula, mesmo assim, seguir estável como favorito. O senão, para esses mesmos auxiliares do Planalto, é a capacidade limitada do presidente de apresentar argumentos que convençam eleitores moderados a votarem nele.
“É preciso lembrar que o ambiente geral no Brasil é hoje mais de direita que de esquerda. A esquerda é forte nas redes sociais, nas conversas, boa parte da população se define como de esquerda, mas o clima geral visto nas eleições municipais passadas mistura empreendedorismo, religião, negócios, ascensão social, segurança pública, além de um cansaço com o PT. Esses temas não são tão naturais para o Lula ou para a esquerda”, avalia Jairo Nicolau.
“Quanto à classe média, uma parte já abandonou o PT há algum tempo. No Brasil, setores de renda acima de dez salários e eleitores de escolaridade mais alta foram para a direita. Para o Lula vencer, ele tem que se garantir nas classes mais baixas, mais uma vez, sobretudo com pessoas de ensino médio, com renda de dois a cinco salários mínimos”, prossegue o professor.
A rejeição como empecilho
Para o cientista político Sergio Praça, a viabilidade eleitoral de Flávio Bolsonaro ainda é uma incógnita. Ele concorda com o peso do sobrenome, mas avalia que, com Flávio na disputa, Lula até amplia suas chances de vencer. “Se for essa a estratégia, é como escolher perder de propósito”, diz Praça, professor visitante na Universidade Federal de Alfenas (MG).
O ceticismo de Praça se explica pela alta rejeição à família Bolsonaro. Em meados de dezembro, uma pesquisa Genial/Quaest mostrou que Flávio tem os mesmos 60% de rejeição do pai, índice que supera as rejeições de Lula (54%), Tarcísio (47%), Caiado (40%), Ratinho Jr (39%) e Zema (35%).
“É claro que a rejeição a Lula também é alta, mas acho que existe uma intensidade das preferências. Existem rejeições menos ou mais intensas, e isso faz diferença. Existe aquele eleitor que diz que nunca votaria em alguém da família Bolsonaro, mas poderia votar em Tarcísio. Além disso, acho que o sistema político, esse grupo que se convencionou se chamar de Centrão, considera o Flávio Bolsonaro um candidato muito mais fraco do que governadores como o Tarcísio e o Ratinho”, pondera.
Quanto à polarização e às chances de ela ser quebrada em 2026 por uma força moderada, Praça adverte que esse cenário ainda parece distante. “A gente terminou o ano com menos certezas do que tínhamos três ou quatro meses atrás”, diz.
Temas e personagens centrais
As pesquisas indicam que a segurança pública será o tema dominante da disputa eleitoral, por estar no centro das principais preocupações dos brasileiros. Na mesma Genial/Quaest divulgada em dezembro, a violência apareceu como principal ponto para 36% dos entrevistados, seguida das desigualdades sociais (19%), corrupção (15%), economia (11%), saúde (10%) e educação (4%).
Além disso, tudo indica que será uma eleição, mais uma vez, centrada nas figuras de Lula e do próprio Jair Bolsonaro, embora ele esteja preso e impossibilitado de participar da disputa. Pelo cenário que está posto hoje, se de um lado o próprio Lula se apresenta como candidato, do outro o candidato de oposição que tende a ter mais chances é o que, na reta final, receberá a bênção do ex-presidente.
O papel crucial de Bolsonaro na disputa pelo Planalto está bastante evidenciado no processo de escolha do candidato da direita. O PL, partido ao qual é filiado, deu a ele a prerrogativa de definir o nome. “Em 2022, ninguém imaginava o Bolsonaro preso e nem vários políticos ligados ao PL presos também, perdendo mandatos. O fato é que, de duas eleições para cá, Bolsonaro se tornou a principal liderança antipetista e antilulista”, afirma Jairo Nicolau. “O sobrenome Bolsonaro passou a constar do jogo político nacional.”
Idade de Lula e vazio no entorno
O cenário que se tira das pesquisas aponta um cansaço em relação ao PT e a Lula, embora também indique a falta de alternativas no campo da centro-esquerda. Nesse ponto, especificamente, o presidente assume o papel de se colocar para vencer a direita.
Jairo Nicolau lembra que quando Lula se candidatou nas eleições passadas para disputar seu terceiro mandato, o fez representando também outras forças políticas. Desde então, nenhuma outra opção cresceu à sombra do presidente. “A volta do Lula era não só uma volta da da esquerda, mas também de segmentos mais moderados da opinião pública e do empresariado, que queriam certa ordem no caos deixado por Bolsonaro. Então, se imaginava que seria um governo de transição e que o Lula não disputaria pela idade”, diz.
“Ele já é o presidente mais velho a chegar ao poder na história da República e será ainda mais velho ainda se vencer de novo com 81 anos. Imaginava-se que ele passaria a bola para um sucessor do campo político dele. Mas isso não se tornou possível”, acrescenta Nicolau, citando nomes do governo, como os dos ministros Fernando Haddad (Fazenda) e Simone Tebet (Planejamento), que poderiam ter se credenciado para a sucessão.
“O lulismo sempre ganhou a eleição porque ele é sempre maior que a esquerda”, observa Felipe Nunes, da Quaest, doutor em ciência política, mestre em estatística pela Universidade da Califórnia e professor da FGV.
O julgamento pela questão da idade é um ponto de preocupação no governo e no PT. Nesta quarta-feira, 31, a ministra Gleisi Hoffmann (Relações Institucionais) respondeu publicamente, com críticas, o editorial publicado pela revista britânica The Economist segundo o qual Lula deveria deixar a disputa em razão da idade avançada. “O que eles temem é a continuação de um governo que retomou o crescimento do Brasil e não tem medo de enfrentar a injustiça tributária e social”, disse a ministra, claramente irritada.
O papel do Centrão
Outro elemento que tende a desempenhar um papel preponderante na disputa é o Centrão, com seu amplo arco de partidos e sua capilaridade pelos rincões do Brasil. Embora boa parte dessas legendas estejam, ao mesmo tempo, com um pé no governo Lula e outro no campo bolsonarista, é certo que elas se movem para demarcar sua relevância na corrida presidencial de modo a tirar o máximo de dividendos possível.
Uma das correntes majoritárias do grupo, com o Progressistas e o Republicanos à frente, trabalha por candidatura própria e torce o nariz para a opção Flávio Bolsonaro, por entender que o senador, mesmo apresentando bons números agora nas pesquisas, terá dificuldades de sustentar a competitividade no longo prazo. O nome defendido por algumas das principais lideranças do Centrão é o de Tarcísio de Freitas – que, por sinal, tem a menor taxa de rejeição (47%) entre os principais nomes da oposição. Sua rejeição também é menor que a de Lula.
Tarcísio, porém, vive um dilema na missão de construir uma candidatura mais ao centro e menos apegada ao bolsonarismo: encontrar a estratégia e o discurso ideais para seguir adiante sem perder os votos das alas da política e do eleitorado mais leais ao estilo ruidoso de Jair Bolsonaro.
“O que a direita não bolsonarista tem é a oportunidade de fazer o enfrentamento contra o bolsonarismo, mas, para isso, tem que correr o risco de criar rejeição em um grupo que é coeso e forte. Se isso vai acontecer ou não, depende dos partidos”, diz Felipe Nunes.
Por ora, a certeza que se tem sobre a corrida presidencial de 2026 é que, assim como as anteriores, será uma disputa com emoção – e ainda marcada fortemente pela polarização.
