Nem mesmo o fato de ser considerado por governistas como um elemento de contenção da bancada de direita no Senado livrou o presidente do casa, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), de desgastes com o Palácio do Planalto ao longo do ano passado. Alcolumbre terminou 2025 mandando a Polícia Legislativa identificar os responsáveis por uma campanha deflagrada na internet com o slogan “Congresso inimigo do povo”. A desconfiança é de que há digital do governo na ofensiva.
A boa relação com o Planalto que marcou os primeiros meses do retorno do parlamentar do Amapá ao comando do Senado (ele já havia presidido a casa de 2019 a 2021) ficou especialmente estremecida após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva indicar o ministro Jorge Messias (Advocacia-Geral da União) para a vaga de Luís Roberto Barroso no STF (Supremo Tribunal Federal).
Davi Alcolumbre tinha um candidato preferido para a cadeira, o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG), que o antecedeu na presidência do Senado. Pacheco também tinha o apoio de diversos outros senadores. A crise em torno do assunto foi aprofundada pelo fato de o Planalto ter anunciado Messias sem antes formalizar a indicação ao Senado. Em razão da irritação de Alcolumbre, ainda pairam dúvidas se o nome de Messias será aprovado.
Nem tudo foi estresse. Houve também lances de afago explícito. Como, por exemplo, a autorização do governo, com aval do presidente Lula, para as pesquisas de petróleo na chamada Margem Equatorial, na foz do rio Amazonas. O assunto é delicado por mobilizar a oposição ferrenha de ambientalistas. Mas agrada imensamente Alcolumbre por causa do potencial econômico da exploração para seu estado, o Amapá.
Afago à vista
Passado o recesso parlamentar e as eleições no calendário deste ano, Planalto espera apaziguar a relação. Lula vai chamar Davi Alcolumbre para uma conversa e entregar em mãos a indicação de Messias. Será uma correção do erro político de ter anunciado o chefe da AGU como o escolhido para a vaga no STF sem antes combinar o jogo com o presidente do Senado.
Apesar de vários itens da pauta considerada pelo Planalto como prioritária já terem sido aprovados, Lula ainda depende de gestos importantes de Alcolumbre. Por exemplo, na análise dos vetos do presidente a propostas aprovadas pelo Congresso – os parlamentares, afinal, podem derrubar esses vetos. Nessa lista estão emendas que envolvem recursos do Orçamento da União e o veto ainda não assinado, mas anunciado, do projeto de lei que reduz as penas para condenados pela tentativa de golpe.
