Presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado e vice-presidente da representação brasileira no Parlamento do Mercosul, o senador Nelsinho Trad (PSD-MS) afirma que o acordo entre o bloco de país sul-americanos e a União Europeia representa uma “oportunidade histórica” para o Brasil ampliar acesso a mercados e dar mais competitividade ao setor produtivo, especialmente ao agronegócio. Para ele, o impacto econômico já pode ser medido por estados como Mato Grosso do Sul, que em 2025 exportou US$ 1,3 bilhão para países europeus, com destaque para soja, celulose, carne e açúcar.

Ao PlatôBR, Trad, que integra a chamada bancada ruralista, defendeu que o Senado se organize o quanto antes para aprovar o acordo com rapidez, com a criação de uma subcomissão na Comissão de Relações Exteriores. Segundo ele, o acordo assinado no último sábado, 17, traz mecanismos para dar mais previsibilidade ao comércio agropecuário, inclusive em temas sanitários e ambientais, e cria condições para reduzir tarifas hoje consideradas “proibitivas” para produtos sensíveis, como carne bovina.

Existem riscos para o Brasil, e especialmente para o agro, se o acordo for aprovado como está?
É uma oportunidade histórica. O Brasil tem a chance de ampliar acesso a mercados e dar mais competitividade para quem produz e exporta. Só Mato Grosso do Sul, que eu represento, exportou US$ 1,3 bilhão pra União Europeia em 2025 e importou US$ 492 milhões, com soja, celulose, carne e açúcar entre os destaques. Isso mostra como essa agenda mexe com emprego, renda e investimento. Por isso eu defendo que o Senado se organize desde o primeiro dia [na volta do recesso], com subcomissão na Comissão de Relações Exteriores, escuta do setor produtivo e análise técnica.

A União Europeia costuma impor barreiras ambientais e sanitárias que funcionam, na prática, como barreiras comerciais. O senhor vê garantias reais no acordo de que isso não vai continuar acontecendo, ou há risco de o produtor brasileiro ganhar acesso formal e continuar barrado na prática?
O acordo traz um capítulo específico de medidas sanitárias e fitossanitárias justamente para dar mais transparência e previsibilidade ao comércio agropecuário, com mecanismos como habilitação facilitada de exportadores, regionalização e reconhecimento de práticas brasileiras equivalentes aos requisitos europeus. O acordo prevê um constante debate em nível técnico-ministerial para trabalhar essa aceitação de práticas recíprocas.

No caso de produtos como carne bovina e açúcar, que entram por cotas, o acordo não corre o risco de consolidar uma abertura muito menor do que a prometida politicamente? O que, na prática, o Brasil ganha nesses dois casos?
Ganha acesso ampliado com cotas tarifárias e reduções graduais para esses produtos sensíveis, que enfrentam tarifas proibitivas hoje, sendo 51,8% na carne, 22% no açúcar. Isso eleva a competitividade, gera empregos e renda no agro. No Senado, na Comissão de Relações Exteriores, que presido, vamos debater com evidências, ouvindo produtores para transformar isso em saldo positivo, como nossos US$ 808 milhões com a UE em 2025. Aqui faço só um comentário para ciência: a cota aberta para o açúcar vai substituir uma cota geral para todos os países, que o Brasil já usa. Não será uma nova cota, mas será uma reserva desse volume [180 mil toneladas] exclusivo ao Brasil.

Esse acordo foi fechado depois de mais de vinte anos de uma negociação que atravessou vários governos. É, em maior medida, mais um triunfo político-diplomático ou um acordo comercial que é realmente bom do ponto de vista prático?
Eu vejo como os dois, mas principalmente como um acordo comercial necessário pro Brasil. Foram 26 anos de negociação, iniciadas em 1999, e agora nós chegamos a um avanço concreto com a assinatura em Assunção e a aprovação na Europa por maioria qualificada no Conselho da União Europeia. Eu não cheguei nessa pauta ontem, acompanho isso desde 2019, no Parlasul. O que está em jogo aqui é resultado: mais acesso a mercado, menos barreiras e mais segurança pra quem produz, investe e exporta. O Mato Grosso do Sul mostra o tamanho disso, pois em 2025 exportou US$ 1,3 bilhão pra União Europeia e importou US$ 492 milhões, com soja, celulose, carne e açúcar como destaques. Por isso, eu defendo a aprovação e vou trabalhar para que o Congresso trate o tema com celeridade, com organização e ouvindo o setor produtivo.