Se a direita brasileira quiser ampliar suas chances em 2026, precisará abandonar duas tentações fáceis, quais sejam, a crença de que o antipetismo basta e a aposta permanente na radicalização moral como motor eleitoral. Ambas funcionaram em momentos específicos, mas já não produzem maioria.

Pesquisas de opinião recentes convergem em um dado incômodo para os extremos: o eleitor médio é conservador nos valores, mas moderado na política, ou seja, ele desconfia do Estado, rejeita aventuras autoritárias, valoriza estabilidade econômica e não se reconhece em discursos de guerra cultural permanente. A direita que insistir em falar apenas para sua base ideológica tenderá a repetir o erro da esquerda quando confundiu hegemonia institucional com hegemonia social.

A direita reacionária, em particular, precisa compreender que mobilização não é sinônimo de maioria. Engajamento digital intenso e lealdade militante são ativos, mas insuficientes para vencer uma eleição presidencial em um país com voto obrigatório e eleitorado difuso. Em 2018, o contexto de colapso do sistema político até funcionou como catalisador, mas em 2026, o ambiente é outro, talvez de menos indignação e mais cálculo.

Um outro eixo decisivo é o da economia cotidiana, não como slogan, mas como narrativa. A direita costuma falar de mercado, ajuste e responsabilidade fiscal em uma linguagem autocentrada, dirigida às elites políticas e econômicas. O eleitor comum, porém, decide com base em emprego, renda, crédito, inflação e expectativa de futuro. Criticar as políticas sociais “é fácil”, difícil mesmo é oferecer alternativas críveis, inteligíveis e comunicáveis fora do jargão técnico.

Nesse ponto, a direita que se apresentar apenas como negação do lulismo corre o risco de parecer vazia. O eleitor não precisa ser convencido de que o país tem problemas, porque ele quer saber quem administra melhor o que existe, não quem promete refundar tudo. Uma direita competitiva em 2026 precisa mostrar competência administrativa antes de pureza ideológica.

Por fim (porque o limite de caracteres não me permite estender a discussão em outros pontos), há o problema da liderança. Personalismo extremo gera lealdade, mas também alto índice de rejeição. E em eleições majoritárias, rejeição pesa mais do que entusiasmo. Uma direita que aposte em lideranças menos carismáticas e mais confiáveis, menos performáticas e mais previsíveis, pode parecer menos excitante, mas tenderá a ser eleitoralmente mais eficiente.

Em síntese, a direita brasileira só aumentará suas chances em 2026 se trocar a lógica da exceção pela da normalidade. Menos promessa de ruptura, mais promessa de gestão. Menos guerra discursiva, mais administração do concreto. A radicalização pode até garantir identidade, mas dificilmente vai garantir a maioria.

Fillipi Nascimento é sociólogo. Doutor em Sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco e pesquisador do Insper