A filiação de Ronaldo Caiado ao PSD, anunciada na noite desta terça-feira, 27, marca o desfecho de uma saída que já vinha sendo ensaiada no União Brasil, partido no qual o governador de Goiás enfrentava resistências internas para viabilizar seu projeto presidencial. Mais do que um movimento individual, a troca ajuda a completar um desenho que Gilberto Kassab vem montando com cuidado: transformar o PSD, já forte no plano municipal, em uma força relevante também na disputa nacional de 2026.
Com Caiado, Eduardo Leite e Ratinho Jr. sob o mesmo guarda-chuva, o PSD passa a reunir três governadores em exercício com ambições presidenciais — e, sobretudo, com perfis bastante diferentes entre si. Não há sinais de que haverá uma escolha imediata, nem a garantia de que algum dos três realmente será lançado como cabeça de chapa, até porque Kassab pode acabar decidindo compor com outro candidato. Mas é clara, por ora, a uma estratégia de manter o partido com opções à mão até mais perto da definição do cenário eleitoral.
No trio diverso, Caiado ocupa o polo mais ideológico. Governador de Goiás em segundo mandato, ele vem da tradição da direita ruralista e conservadora, com discurso duro na área de segurança pública e forte identificação com o agronegócio e com o eleitorado do Centro-Oeste e do interior do país. É um político de posições claras e base fiel, mas também com alcance mais concentrado nesse campo.
O governador do Paraná, Ratinho Jr., aparece em uma moldura diferente. Com perfil mais associado à gestão do que ao embate ideológico, construiu sua imagem pública a partir do discurso de eficiência administrativa e pragmatismo político. É visto como alguém com trânsito mais fácil pelo centro e com menor rejeição, ainda que sem uma identidade nacional tão marcada.
Já Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul e egresso do PSDB, completa o desenho como a face mais moderada e, talvez, moderna do grupo. Carrega uma imagem ligada à renovação geracional e a um liberalismo mais institucional, com apelo sobretudo entre setores da classe média e do empresariado.
Para o CEO da consultoria de análises Dharma Political Risk, Creomar de Souza, o movimento faz parte de uma estratégia mais ampla de Kassab para posicionar o PSD como um partido de centro e sair da eleição como peça-chave do próximo ciclo político. “Ele tenta acomodar nomes fortes para ser fiel da balança, tanto num eventual segundo turno quanto na sustentação de um governo em 2027”, diz.
Souza avalia que há espaço para que um nome de “terceira via” bem trabalhado alcance dois dígitos no primeiro turno e vire uma moeda de negociação decisiva. Nesse desenho, acrescenta, o PSD também passa a mirar não apenas o Planalto, mas o peso que pode ter na configuração do Congresso, especialmente no Senado.
Nas eleições municipais de 2024, o PSD foi o partido que mais elegeu prefeitos em todo o país. Um dos principais aliados de Tarcísio de Freitas (Republicanos), de quem é secretário no governo de São Paulo, Kassab mantém uma ponte direta com aquele que, mesmo afirmando que disputará a reeleição, é tratado hoje no meio político como o nome mais competitivo da direita para a Presidência.
Ao mesmo tempo que abriga Caiado, Ratinho Jr. e Eduardo Leite no PSD, o dirigente passa a jogar em duas frentes: constrói uma alternativa própria e preserva espaço numa eventual candidatura externa. Na prática, isso coloca o partido em posição privilegiada para negociar apoios, cargos e agenda no próximo ciclo político, independentemente de quem venha a liderar a corrida ao Planalto.
