Assim que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva começou a discursar na abertura do ano do Judiciário, o ministro Sidônio Palmeira (Secretaria de Comunicação) percebeu que a voz do chefe não estava chegando bem aos ouvidos da plateia presente no plenário do Supremo Tribunal Federal. Sentado próximo, rapidamente ele se levantou e, fazendo sinais para o fotógrafo oficial de Lula, Ricardo Stuckert, pediu que o problema fosse resolvido. Do momento em que Sidônio percebeu a falha até o ajuste da direção do microfone, feito por um auxiliar do plenário acionado por Stuckert, não passou nem um minuto e logo alto voz de Lula estava saindo em alto e bom som no sistema do Supremo.
O baiano Sidônio é ministro, é publicitário e é estrategista do presidente. E, neste ano eleitoral, o chefe da Secom tem sido acionado de maneira ainda mais frequente para tudo o que diz respeito à imagem pública do presidente e do governo. Sua missão é estar atento para resolver desde a qualidade da voz de Lula que não está saindo direito, como registrado na semana passada no STF, até ajudar a moldar posicionamentos estratégicos em relação à política externa, à condução de assuntos da economia e aos formatos dos eventos no Planalto. Tudo com a anuência do próprio presidente, que o chama para opinar e também para tomar decisões. Com tantas atribuições, o ministro tem aparecido cada vez mais frequentemente ao lado do petista, tanto em cenas banais quanto em atos de maior formalidade, como conversas com chefes de Estado.
Ligação com Trump
Há duas semanas, Lula fez questão de contar com a presença do ministro na sala durante a conversa telefônica que teve com o presidente norte-americano, Donald Trump. O vice, Geraldo Alckmin, o assessor especial Celso Amorim e o intérprete Sérgio Ferreira também acompanharam a ligação. Da mesma forma, quando tropas especiais do governo Trump invadiram a Venezuela e prenderam Nicolás Maduro, Lula estava de férias no Rio de Janeiro e mandou chamar Sidônio para as duas reuniões no Itamaraty que definiram a postura do Brasil em relação ao conflito – para esse tipo de atividade, não é comum a participação de um chefe da comunicação do Planalto.
“Não se tratou apenas de ser chamado para comunicar da melhor forma alguma decisão. Sidônio está sempre sentado no ambiente da decisão e Lula confia nele”, disse ao PlatôBR um integrante do governo. “Hoje, se alguém se dedicasse a mapear o ‘núcleo duro’ de Lula, não teria como não colocar Sidônio entre os cinco ministros mais importantes”, acrescentou. O chefe da Secom foi o responsável pela campanha de Lula em 2022 e a tendência é que, no projeto reeleitoral deste ano, esteja novamente à frente da estratégia de comunicação e marketing.

No STF: Sidônio Palmeira aciona o fotógrafo de Lula para ajudar a resolver problema em microfone
Sai ou não sai?
Hoje, no Planalto, há dúvidas se o ministro deixará a pasta para acompanhar Lula na campanha. Caso opte por permanecer no cargo, viverá uma circunstância delicada, que certamente será atacada pela oposição: o marqueteiro responsável pela imagem eleitoral do presidente continuaria despachando no Planalto.
Em governos anteriores, publicitários influentes nas campanhas de Lula e do PT, como João Santana e Duda Mendonça, rondavam o palácio, mas nunca com cargos de ministro. A aposta de pessoas mais próximas de Lula é de que Sidônio não sairá e delegará a função da campanha para o publicitário Raul Rabelo, seu sócio na agência Leiaute. “Ele gostou de ser ministro”, define uma pessoa do governo.
Centro das decisões
A ascendência do marqueteiro sobre decisões importantes da administração Lula começou com a crise envolvendo o sistema de pagamentos Pix. Em janeiro de 2025, Sidônio agiu, a contragosto do ministro Fernando Haddad (Fazenda), para revogar a portaria da Receita Federal que previa maior fiscalização e que foi usada por perfis ligados à oposição para difundir a ideia de que o governo taxaria as movimentações financeiras.
Era um momento crítico para a popularidade de Lula, e aquela foi a primeira turbulência enfrentada pelo ministro após substituir o petista Paulo Pimenta na pasta. Além de ter participado da decisão, Sidônio assumiu a tarefa de explicar a situação, não só por meio de ações publicitárias nos canais do governo nas redes, mas também abastecendo aliados com argumentos para fazer frente à ofensiva da oposição. A avaliação interna é que a estratégia não só funcionou como marcou uma virada de chave na comunicação de Lula e do governo.
Além de prevalecer sobre Haddad, Sidônio também enfrentou estruturas até então consolidadas no Planalto. Demitiu, por exemplo, pessoas ligadas a Pimenta e à primeira-dama, Janja da Silva. Ele imprimiu sua marca em eventos no palácio pensados para ter repercussão na imprensa, nas redes e na base de apoio a Lula. No caso de Janja, há um elemento adicional: é atribuída a ele a iniciativa de refrear a exposição excessiva da primeira-dama, que em alguns momentos desde a posse de Lula protagonizou episódios que deram o que falar, especialmente na internet.
A pedido de Janja
O “empacotamento” mais recente com a marca do ministro-marqueteiro, com vídeos, apresentações artísticas, mobilização em redes e outras ações se deu justamente a partir de um pedido de Janja, que se comoveu com o caso de uma mulher que morreu após ser atropelada e arrastada pelo ex-namorado pelas ruas de São Paulo. Foram três meses de preparo desde dezembro de 2025 até a cerimônia no Palácio do Planalto, na última quarta-feira, 4, que uniu os três poderes por um pacto contra o feminicídio.
Lula cobrou das ministras Márcia Lopes (Mulheres) e Macaé Evaristo (Direitos Humanos) a apresentação de um programa robusto, tarefa nada fácil diante de todas as ações institucionais colocadas em funcionamento ao longo de mais de 20 anos, como o serviço Disque 180, a Lei Maria da Penha, a Lei do Feminicídio e a Casa da Mulher Brasileira, além de pactos já construídos no passado, inclusive no governo de Dilma Rousseff, junto com o Judiciário e outras esferas de poder.
Sidônio deu nova roupagem ao que já existia lançando o “Pacto Nacional de Prevenção ao Feminicídio”, sem ações concretas que demandem investimentos, mas com um mote relativamente novo e com apelo eleitoral, chamando os homens à responsabilidade de contribuir para o fim do feminicídio. No evento, Lula abriu seu discurso falando da “fotografia” dos quatro homens, chefes de poder, unidos contra a violência contra as mulheres. Um vídeo preparado pela equipe de Sidônio mostrava outras rodas eminentemente masculinas em um bar, em obras e em outros ambientes estereotipados como “lugar de homem”, dizendo que ligariam para o 180 para denunciar outros homens. Tudo pensado e produzido com o olhar de marqueteiro do ministro – que age agora pensando em outubro.
