As condições eleitorais na Paraíba forçaram o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), a entrar em sintonia com o presidente Lula. Além de tentar eleger o pai, Nabor Wanderley, ao Senado, Motta buscará mais um mandato de deputado federal e espera contar com o apoio do petista, que venceu Jair Bolsonaro no estado por larga vantagem em 2022.
Mas a relação enfrenta percalços graves. A reunião de líderes chamada por Motta nesta segunda-feira, 9, transcorreu em clima de “paz armada” entre o presidente da Câmara e o Planalto. Motta disse que o governo não agiu de forma justa com ele e foi duro ao dizer que se sentia traído no episódio do aumento dos salários e dos penduricalhos dos rendimentos dos servidores. A proposta foi aprovada na primeira semana de trabalho da Câmara e do Senado, em uma votação rápida e pouco transparente, na qual foram registrados apenas os votos de partidos e parlamentares que se colocaram contrários à proposta.
Na reunião desta segunda, Motta demonstrou irritação e disse que não vai tolerar mais ser culpado sozinho pelos desgastes. Ele reforçou que o Planalto não agiu de forma justa ao negar a existência de um acordo sobre a proposta, envolvendo inclusive os líderes do governo. O presidente da Câmara endereçou as críticas a ministros de Lula, sem citar nomes, e à comunicação do Planalto.
“Acabou o Motta amiguinho”, disse o deputado, com batidas na mesa, segundo um participante da reunião. Motta também afirmou estar farto de campanhas estimuladas em perfis governistas que colocam a Câmara como “inimiga do povo” e que, a partir de agora, não vai mais “aceitar pagar por coisas que a Câmara não deve”. “A Câmara não será mais a inimiga do povo sem ser”, teria dito, conforme relatos de interlocutores.
Na reunião, Motta destacou que a Câmara, entre os poderes da República, é o que tem menos cargos que podem extrapolar o teto constitucional. Ele indicou que o acordo para a votação do aumento de salários fazia parte de um conjunto de combinados que incluía projetos de interesse do governo. Como parte desse acerto, inclusive, ele deu celeridade à tramitação da proposta que prevê o fim da jornada de trabalho 6×1, considerada prioritária pelo Planalto.
Álibi
Após a repercussão negativa da votação dos supersalários, Lula foi aconselhado por lideranças petistas a vetar a proposta. Diante das acusações de traição feitas pelo presidente da Câmara, o líder do governo, José Guimarães (PT-CE), tentou contemporizar, dizendo que ele próprio fez uma publicação nas redes sociais defendendo a Câmara e a proposta e apontando a existência do acordo. Na postagem, feita no dia 4 de fevereiro, Guimarães disse que o aumento não era de iniciativa do governo, mas que havia a concordância do Planalto com o tema.
Apesar do reconhecimento, Motta não cedeu ao gesto de paz feito pelo líder governista e manteve o clima de desconfiança também em relação a outras negociações. Na reunião, quando Guimarães pediu para que o presidente da Câmara retirasse da pauta o projeto de sua autoria que prevê um regime especial de incentivos para serviços de datacenter, conhecido como Redata, Motta negou o pedido dizendo que a retirada de pauta poderia “cair também em sua conta” e pautou o projeto para votação nesta terça-feira, 10. Ao pedir a retirada de pauta, o líder governista alegou divergências dentro do próprio governo sobre a proposta.
