Ainda na ressaca do Carnaval, opositores ao governo federal se mobilizam para questionar a homenagem ao presidente Lula, em desfile da Acadêmicos de Niterói realizado no domingo, 15, na Marquês de Sapucaí, no Rio. Mesmo com o rebaixamento da escola, adversários do petista tratam a apresentação como campanha eleitoral antecipada e financiada com dinheiro público. O PT tenta se dissociar da autoria do enredo e sustenta que a responsabilidade é exclusiva da escola.
O senador Flávio Bolsonaro foi o primeiro a reagir e garantiu que irá judicializar o episódio o quanto antes. O diretório nacional do PL, por sua vez, formalizou a ofensiva em posicionamento oficial nas redes sociais. O partido afirmou que o desfile “materializou uma série de ilícitos eleitorais que merecem responsabilização pela Justiça Eleitoral” e acusou a Acadêmicos de Niterói de promover “verdadeiro discurso político de exaltação da imagem do pré-candidato Lula”. A legenda também aponta o uso de símbolos partidários, menção a número de urna e a reprodução de jingle eleitoral como indícios de “inequívoca conotação eleitoral”.
Um dos principais nomes da oposição no Congresso, o deputado Nikolas Ferreira anunciou uma representação ao Ministério Público do Rio de Janeiro contra o presidente da escola de samba, Wallace Alves Palhares. Ele reagiu à ala “Neoconservadores em conserva”, que satirizou grupos religiosos e conservadores. Segundo o parlamentar, a fantasia representou “os cristãos como se fossem algo a ser descartado”, o que “ultrapassou o limite da crítica política e entrou no terreno perigoso do preconceito religioso”.
Antes mesmo de a escola entrar na avenida, a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) já havia tentado barrar a homenagem. Ao assistir ao desfile, ela reforçou a crítica. “Na verdade, é um desfile de crime, porque é um crime eleitoral. Todos vocês sabem que eu ingressei com medidas judiciais para que esse crime eleitoral não acontecesse, porque é uma campanha política antecipada, com verba pública””, afirmou. Ela também classificou como “inadmissível” o uso de recursos públicos para “ridicularizar a Igreja Evangélica”.
Além de Damares, o senador Bruno Bonetti (PL-RJ), ao lado do deputado estadual Anderson Luis de Moraes, ingressaram na Justiça Federal em Brasília com uma ação popular para barrar o repasse de R$ 12 milhões da Embratur à Liesa (Liga das Escolas de Samba do Rio de Janeiro), sendo R$ 1 milhão para a Acadêmicos de Niterói. Os autores da ação apontam desvio de finalidade e promoção pessoal da figura de Lula com verba pública em ano eleitoral. Eles também haviam pedido uma liminar para suspender o desfile ou a transmissão, mas não tiveram sucesso.
“Afronta à ordem constitucional”
A reação encontrou eco em entidades de fora da política partidária. A OAB-RJ declarou que o desfile representou uma “afronta direta à ordem constitucional” e reiterou o compromisso com a liberdade religiosa. A Frente Parlamentar Católica apontou indícios de violação à legislação, cobrou providências e alertou que representações que ridicularizem crenças “não contribuem para o ambiente de respeito que a democracia exige”.
Após o desfile, a Acadêmicos de Niterói reagiu às críticas afirmando que sofreu “ataques de setores conservadores” e denunciou “tentativa de interferência” na sua autonomia artística. “Durante todo o processo carnavalesco, a nossa agremiação foi perseguida. Sofremos ataques políticos, enfrentamos setores conservadores e, de forma ainda mais grave, lidamos com perseguições vindas de gestores do próprio Carnaval carioca. Não conseguiram”, afirmou a agremiação, em nota. “Mesmo pressionada, a Acadêmicos de Niterói não se curvou”, prosseguiu o texto. Na apuração das notas do desfile, nesta quarta-feira, 18, escola foi a última colocada e acabou rebaixada do Grupo Especial. No Carnaval de 2027, disputará a Série Ouro, novo nome do antigo grupo de acesso.
