Ao vetar os chamados “penduricalhos” que poderiam elevar salários de servidores do Legislativo a um patamar acima do teto constitucional do serviço público, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva apostou que não haveria na Câmara nem no Senado disposição para derrubar a medida, que repercutiu negativamente perante a população. Lula iniciou a viagem à Índia e à Coreia do Sul deixando a sanção assinada. O presidente não vetou o aumento dos servidores, mas barrou a parte que, na prática, levaria a uma extrapolação do teto, hoje fixado em R$ 46,3 mil.
Aliados do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), indicam que, diante da sanção parcial, ele estaria propenso a não trabalhar politicamente para a derrubada dos trechos vetados por Lula. Embora tenha patrocinado a aprovação da proposta, junto com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), Motta tende a tirar o assunto de suas prioridades. Ele fez silêncio após o despacho do presidente da República e deve deixar a questão para ser resolvida exclusivamente por Alcolumbre, que, na condição de presidente do Congresso, tem a atribuição de convocar a sessão conjunta da Câmara e do Senado destinada a apreciar os vetos.
Se, de fato, aceitar os vetos de Lula ao projeto, Motta fará uma mudança radical em sua posição sobre o tema. Depois da aprovação da proposta, quando o Planalto deu sinais de que discordava do texto, ele se mostrou irritado e reclamou de falta de cumprimento de um acordo por parte do governo, que teria concordado com a proposta levada ao plenário.
Reação
A possível desistência de Motta de lutar para manter a íntegra da proposta aprovada pelos parlamentares pode custar críticas incisivas entre as poucas vozes no Congresso que apoiam publicamente o aumento. Um dos parlamentares mais contundentes na defesa do texto integral é o deputado Alberto Fraga (PL-DF), relator do projeto na Câmara. “Ele [Motta] pediu para eu ser o relator e não me permitiu mudar nada no texto”, disse o deputado ao PlatôBR. “Se ele aceitar o veto e não lutar para derrubá-lo, estará aceitando mais uma desmoralização”, emendou o deputado.
A posição de Fraga, no entanto, é diferente da opinião de outros congressistas, até dentro do próprio partido do deputado. Cabo Gilberto Silva (PL-PE), líder da oposição na Câmara, diz que analisará a proposta junto às bancadas de legendas oposicionistas, mas considera que o corte dos penduricalhos é justo.
A deputada Adriana Ventura (SP), líder do Novo, também está de acordo com a manutenção do veto e acha que não há clima na Câmara para derrubá-lo. Ela foi contrária ao acordo desde o início e acha que a indignação popular é o freio que impede que deputados e senadores insistam na proposta. “Diante da mobilização de várias instituições da sociedade civil, entendo que não há nenhum clima para a derrubada do veto, apesar de o Congresso, muitas vezes, surpreender em causas que parecem óbvias”, afirmou a deputada ao PlatôBR.
