Até o início do ano, os maiores obstáculos para a aprovação do ministro Jorge Messias (Advocacia-Geral da União) para o STF eram a má vontade do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), e a resistência da oposição, principalmente dos evangélicos. Nas últimas semanas, o nome do indicado pelo presidente Lula para a vaga de Luiz Roberto Barroso passou a enfrentar mais dois entraves: a ascensão de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nas pesquisas e ambiente contaminado pelas suspeitas de desvio de condutas de ministros do Supremo em relação ao banco Master.
Com tantos transtornos, o clima político para a aprovação de Messias pelo Senado nunca esteve tão conturbado, na avaliação de pessoas do Planalto e da AGU, desde o anúncio de seu nome por Lula em novembro do ano passado. Prevalece no momento a avaliação de que as circunstâncias são desfavoráveis a que o presidente envie ao Senado a mensagem formal com a escolha. A indicação está “em suspenso”, na expressão de uma pessoa que acompanha as conversas de perto.
Embora tenha havido uma reaproximação no final do ano passado entre Lula e Alcolumbre, que pressionava pelo nome do senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG), o presidente do Senado emite sinais considerados contraditórios no Planalto, com constantes mudanças de humor. Na semana passada, Alcolumbre chegou a mandar recados a Lula sobre a sua disposição para uma conversa sobre Messias. “A gente espera ser chamado por todas as pessoas que a gente tem respeito e consideração”, disse o presidente do Senado a jornalistas.
Após a reclamação, os dois conversaram pelo telefone e ficaram de marcar um encontro ainda nesta semana. Mesmo com essas iniciativas, o clima não é dos melhores. O governo interpreta algumas atitudes de Alcolumbre como sinais de que ele não está muito sensibilizado com as pautas do Planalto. Há duas semanas, por exemplo, Alcolumbre deixou “caducar” uma medida provisória que previa o Redata, um regime especial para empresas de call centers, matéria que o governo se esforçava para acelerar a votação na Câmara e que acabou perdida por falta de votação no Senado.
Antes do Carnaval, Lula chamou o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), além de deputados da base aliada, para um jantar no Palácio da Alvorada. A ideia era fazer o mesmo com os senadores. No entanto, esse encontro não ocorreu.
Sigilos
Outro ponto que deixou o governo preocupado com Alcolumbre foi a decisão dele de não anular as quebras de sigilos determinadas pela CPI Mista do INSS, entre eles a do empresário Fábio Luiz, filho do presidente. Nesse caso, Alcolumbre fez gestos à oposição, mantendo a decisão da CPI, e ao governo, ao avisar que não deve prorrogar os trabalhos do colegiado.
Na avaliação de pessoas ao redor de Messias, a situação política é “delicada”, agravada pelas crescentes investidas da oposição para tentar votar impeachment de ministros do STF e para a instalação de CPI para apurar possíveis desvios de membros do STF, como os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli.
Campanha contra
Além disso, o entorno de Messias considera que ele não conseguiu vencer no Senado a resistência dos evangélicos. Essa resistência ficou ainda maior após o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) se mostrar competitivo como candidato para enfrentar Lula nas eleições deste ano. O senador trabalha contra a indicação do ministro da AGU, juntando a bancada conservadora e religiosa. Ele tem dito que já conta com 35 senadores contrários à indicação.
