Por falta de resposta da Casa Branca à diplomacia brasileira, ainda não há indicação de data para a visita que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pretendia fazer aos Estados Unidos neste mês de março. Enquanto espera um sinal de Washington, o petista segue em costura de alianças com líderes da América Latina contra os movimentos intervencionistas de Donald Trump.

Neste final de semana, Lula se afasta um pouco das conversas sobre formação de palanques nos estados e da discussão de medidas para enfrentar o aumento o preço do petróleo para comparecer, na Colômbia, à reunião de cúpula da Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos) e ao 1º Fórum de Alto Nível Celac-África.

O encontro é considerados o mais esvaziado da história da comunidade. De um total de 33 países, confirmaram presença somente quatro líderes. Além do brasileiro e do anfitrião, Gustavo Petro, desembarcam em Bogotá o presidente do Uruguai, Yamandú Orsi, que assumirá a presidência do grupo neste ano, e o primeiro-ministro de São Vicente e Granadinas, Godwin Friday. Dos 20 convidados africanos, somente o presidente do Burundi, Évariste Ndayishimiye, como representante da União Africana, estará presente. Os demais países participarão com chanceleres.

Além de marcar posição contra o intervencionismo americano, outro propósito da viagem é tentar impedir que o esvaziamento que se acentua a cada reunião leve ao fim da organização ainda considerada um obstáculo para os interesses dos Estados Unidos na América Latina e no Caribe.

Cuba
Sobre intervenção dos Estados Unidos, as maiores preocupações do governo Lula se concentram agora na situação de Cuba. A apreensão se deve a ameaças recentes de Trump, que fala em “tomar o regime” na ilha. Soma-se a isso a crise já enfrentada pelo país caribenho com apagões que atingem serviços essenciais, como o abastecimento elétrico e coleta de lixo.

Ao mesmo tempo, o governo brasileiro enxerga diferenças entre uma possível intervenção em Cuba com o que ocorreu na Venezuela, onde Trump apoiou a permanência da cadeia de poder de Nicolás Maduro, mesmo após a captura e prisão do venezuelano, mantendo no poder Delcy Rodrigues, que era vice-presidente. Em Cuba, no entendimento do governo brasileiro, esse tipo de arranjo ainda soa como improvável, apesar dos rumores de aproximação entre o secretário de Estado americano, Marco Rubio, com o neto de Raúl Castro, Raúl Guillermo Rodríguez Castro.

Na sexta-feira, após relatos de que Washington procurou remover do poder o presidente cubano Miguel Díaz-Canel, o vice-ministro das Relações Exteriores, Carlos Fernández de Cossio, rejeitou qualquer sugestão de que o sistema político ou o mandato do presidente estivessem em jogo nas conversas com os Estados Unidos. “Posso confirmar categoricamente que o sistema político de Cuba não está em negociação”, afirmou Cossio em entrevista coletiva. Na semana passada, o governo cubano reconheceu que entrou em negociações com o governo dos EUA, mas em relação ao bloqueio petrolífero imposto por Trump ao país.

Divisão interna
Diante das idas e vindas na relação com os Estados Unidos, o governo brasileiro já identificou divergências internas no governo Trump. De um lado, o Brasil enxerga a existência de setores que apostam contra o entendimento entre os dois países durante o governo de Lula. De outro, são observados interesses pragmáticos dos EUA baseados nas relações comerciais ou, até mesmo, na resistência a abrir muitas frentes de conflitos. É nessa seara que a diplomacia tende a agir, identificando interlocutores mais afáveis aos interesses brasileiros.

A estratégia de mudança na interlocução deu certo, na opinião de membros do Itamaraty, durante a negociação sobre as taxas impostas por Trump ao Brasil no ano passado. As recentes investidas, porém, são vistas como reações do grupo mais radical do entorno de Trump. Estão nesse rol a tentativa de classificar as facções brasileiras como organizações terroristas e a reunião do “Escudo das Américas”. Chamado pelos Estados Unidos, esse encontro foi realizado no dia 8 de março na Flórida, com a presença de 17 países latino-americanos, principalmente os que são hoje comandados por governos próximos a Trump, entre eles os da Argentina, Bolívia, El Salvador, Equador, Paraguai e Chile.