O tempo é de desencantamento. Ligações de autoridades com os escândalos do Banco Master, endividamento das famílias e de empresas e pouca eficácia de qualquer projeto que vise a beneficiar o eleitor dentro do sistema. Existe também uma sensação de que, no geral, a democracia vai mal nas respostas práticas para a vida diária. É nesse contexto que a ideia de se colocar na posição de “antissistema” atrai políticos tanto da direita como da esquerda, os que estão no poder ou na oposição.
Neste ano, antes que qualquer político lançasse mão dessa bandeira, o PT se colocou como “antissistema” e espera levar a pauta à Câmara e aos discursos dos candidatos do partido, inclusive do presidente Lula, que tentará a reeleição, a ideia de que o partido representa a luta contra o status quo na política brasileira, mesmo com o presidente no poder. Afinal, que sistema é esse que o PT quer combater?
Nesse período pré-eleitoral, a expressão “antissistema” foi destacada primeiramente pelo presidente do PT, Edinho Silva. O líder do partido na Câmara, Pedro Uczai (SC), define os setores que considera compor o “sistema” nos dias de hoje: as ligações do capitalismo financeiro com o crime organizado identificadas pela operação Carbono Oculto, da Polícia Federal; as tentativas de controle do Banco Central e da política de juros; as conexões de políticos com milícias; estatais privatizadas em governos anteriores e a discussão sobre a exploração dos minerais raros, foco de interesse de países desenvolvidos. Esse último tema se tornou central depois que o ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado, pré-candidato do PSD à Presidência da República, negociou acordos com empresas norte-americanas, à revelia da União, para a exploração desses recursos.
“Estamos sendo criticados por vários setores da sociedade e da imprensa, mas não temos dificuldades em enfrentar esse tema”, afirmou Uczai, que pretende colocar em discussão na Câmara temas como a reestatização da BR Distribuidoras e a proibição das casas de apostas online no Brasil. “É muito engraçado que a extrema direta diz que é antissistema”, reclamou. “Na verdade, eles que estão defendendo o que tem de pior nesse sistema que é a autonomia absoluta do Banco Central. Nós queremos que o BC seja subordinado à política econômica e à soberania brasileira. Nós queremos reestatizar a BR distribuidora e as refinarias que eles privatizaram. Agora querem entregar para o estrangeiro as nossas terras raras”, apontou. “Ser antissistema é defender a soberania, ser antissistema é defender estatais estratégicas e setores estratégicos, é acabar com isenção de impostos sobre lucros e dividendos”, exemplificou.
Efeito nas eleições
Para o cientista político Antônio Lavareda, as concepções antissistema aparecem com mais força diante de um cenário em que a democracia não tem gerado respostas suficientes para o bem estar das pessoas e políticos tentam capturar esse discurso que têm penetração em grande parcela da sociedade. “Em todo o mundo, a operação da democracia está sendo avaliada negativamente devido ao empobrecimento das populações, principalmente das camadas médias da sociedade”, afirma o estudioso. “O aumento do endividamento dos indivíduos e dos países cria um clima de insatisfação com o que se conecta ao que é chamado de sistema”, explica.
Esse sistema envolve a economia, a política, o Judiciário, ou seja, o poder estabelecido, aponta Lavareda. Se existe esse sentimento, os políticos, candidatos e partidos identificam que há uma parcela considerável da sociedade que adere a esse discurso de crítica ao sistema, o que era também chamado no passado de crítica ao status quo, à ordem estabelecida. “Já se chamou isso de diversas formas”, diz.
Lavareda lembra que não se trata de um discurso exclusivo da esquerda e aponta o caráter difuso da expressão, ou seja, dependendo da tendência que se dispõe a utilizá-lo, o significado muda. O que representa ser antissistema para um partido não é necessariamente a mesma coisa para outro. Ele considera natural que o mote seja usado por forças políticas que estão no governo ou na oposição. Além do PT, ele aponta dois exemplos de políticos que também se utilizam dessa bandeira: Jair Bolsonaro e Donald Trump. “O discurso antissistema foi o que socorreu Bolsonaro, que até hoje é visto como um líder antissistema. Ele se elegeu assim em 2018, inclusive. Nos Estados Unidos, Trump se preocupa em manter o tempo todo a ideia de que ele confronta o sistema”, afirmou.
Em uma avaliação sobre o impacto eleitoral, Lavareda indica que no Brasil o eleitor bolsonarista é tipicamente antissistema, até mais que o eleitor de Lula. “Quando a gente olha as pesquisas, o eleitorado de esquerda aprova mais as instituições que o eleitorado de direita. Já nos Estados Unidos o sinal é trocado, os democratas atacam mais o sistema que os republicanos. Acredito que não será uma questão decisiva para a definição do voto, mas é uma questão difusa e que fica ao fundo do palco das eleições, ela está sempre presente”, avaliou.