Varejo é termômetro do ciclo de crescimento
As vendas do comércio varejista encerraram 2025 com crescimento de 1,6%, refletindo uma economia em trajetória positiva, marcada pela geração de empregos, expansão do consumo e maior distribuição de renda. Nesse contexto, a renda média avançou mais de 25% em termos reais, o maior crescimento em três anos consecutivos desde o Plano Real, ao mesmo tempo em que se observam reduções consistentes nas desigualdades.
O rendimento domiciliar per capita para o Brasil, em 2025, ficou em R$ 2.316. O valor representa um avanço em relação a 2024, quando a renda média dos residentes no país ficou em R$ 2.069. Foi maior também na comparação com anos anteriores: R$ 1.893, em 2023, e R$ 1.625, em 2022.
O certo é que o varejo brasileiro sempre foi um dos termômetros mais sensíveis da economia. Quando o consumo reage, o setor cresce. Quando o cenário se torna incerto, é no comércio que muitas das primeiras mudanças aparecem. Nos últimos anos, porém, o varejo passou por algo ainda mais profundo do que oscilações econômicas, viveu uma verdadeira transformação estrutural.
A pandemia acelerou processos que talvez levassem uma década para acontecer. A digitalização das vendas, a expansão do e-commerce e a integração entre canais físicos e digitais deixaram de ser tendências e se tornaram parte da rotina de milhares de empresas. Hoje, para a maior parte dos negócios, vender online, utilizar meios digitais de pagamento ou interagir com clientes por plataformas digitais já não é diferencial competitivo, é requisito básico. Diante desse cenário, surge uma pergunta importante: o varejo brasileiro está preparado para o próximo ciclo de crescimento?
Responder a essa questão exige olhar para os desafios que se desenham no horizonte. Um deles é o avanço acelerado das tecnologias baseadas em dados e inteligência artificial. Ferramentas que analisam comportamento de consumo, antecipam demanda e ajudam na gestão de estoques já começam a redefinir a forma como as empresas tomam decisões. A inteligência artificial não é mais uma promessa distante, ela está cada vez mais presente nas estratégias de marketing, precificação e relacionamento com o consumidor.
Ao mesmo tempo, o comércio eletrônico continua em expansão. Mesmo após o pico observado durante a pandemia, o e-commerce segue crescendo e ampliando sua participação nas vendas do varejo. Esse movimento reforça a necessidade de integração entre loja física e digital, exigindo das empresas uma visão cada vez mais estratégica da jornada do cliente.
Mas os desafios não se restringem à tecnologia. O ambiente econômico também exige atenção constante. A flutuação de commodities fundamentais para o varejo, como energia e combustíveis, além dos efeitos severos do aquecimento global, impacta diretamente os custos operacionais e o poder de compra da população. Somam-se a isso fatores macroeconômicos oscilantes que influenciam tanto o consumo quanto a capacidade de investimento das empresas.
O próximo ciclo de crescimento do varejo dependerá menos da adoção isolada de novas ferramentas e mais da capacidade de combinar eficiência operacional, inteligência de dados e liderança estratégica. Eficiência significa melhorar processos, reduzir desperdícios e integrar operações. Inteligência de dados significa transformar informações em decisões mais rápidas e precisas. Já a liderança estratégica será cada vez mais determinante para preparar equipes, interpretar mudanças de comportamento do consumidor e adaptar modelos de negócio com agilidade.
Para os pequenos negócios, que representam grande parte do varejo brasileiro, esse movimento traz desafios, mas também enormes oportunidades. Nunca houve tantas ferramentas disponíveis para ampliar mercados, conhecer clientes e melhorar a gestão. O grande diferencial estará na capacidade de utilizá-las de forma inteligente. Nesse contexto, o Sebrae seguirá atuando de forma contínua no apoio aos empreendedores em todas as etapas da gestão dos negócios.
Refletir sobre as mudanças e preparar o setor para o futuro é essencial para o desenvolvimento da economia e para a geração de oportunidades em todo o país. É justamente com esse objetivo que temas como inovação, comportamento do consumidor, inteligência de dados e liderança no varejo estarão em debate durante a próxima edição da Feira Brasileira do Varejo, que será realizada entre os dias 20 e 22 de maio, em Porto Alegre. O Sebrae (correalizador com o Sindilojas Porto Alegre) estará presente com 27 empresas de todo o Brasil, Rodadas de Negócios e diversas outras atividades para discutir os caminhos do varejo brasileiro diante de um novo ciclo de crescimento que já começa a se desenhar.
Rodrigo Soares é advogado e mestre em Ciências Jurídicas pela Universidade Federal da Paraíba, com ênfase em Direito Econômico. Duas vezes deputado estadual e atualmente, é presidente do Sebrae Nacional
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