Crises regionais, ambições nacionais: o dilema de Flávio Bolsonaro no Rio de Janeiro
As indefinições que pairam sobre o estado do Rio de Janeiro (leiam-se tensões entre as decisões do Judiciário, os interesses da Assembleia Legislativa e as articulações partidárias locais e nacionais) criou um ambiente de incerteza que tem afetado diretamente o senador Flávio Bolsonaro, candidato à presidência. Flávio construiu sua trajetória política no Rio, onde consolidou sua base eleitoral e redes de apoio que foram decisivas para sua chegada ao Senado. Mas ao ensaiar uma projeção nacional, o senador têm mostrado dificuldade em preservar sua influência no estado sem se deixar capturar pelas crises crônicas que o assolam. Pelo menos é isso que suas reações recentes têm evidenciado.
Ao criticar a demora ou o teor de decisões do Supremo Tribunal Federal, ele dialoga diretamente com a base mais fiel do bolsonarismo, que enxerga o Judiciário como um ator politizado. Essa postura, no curto prazo, reforça sua identidade dentro do campo ideológico ao qual pertence. No entanto, no médio prazo, ela limita sua capacidade de ampliar alianças e dialogar com setores mais moderados do eleitorado, que tendem a valorizar a estabilidade institucional e a previsibilidade. O problema não é a crítica em si, mas o contexto em que ela ocorre, um cenário em que o próprio grupo político de Flávio busca protagonismo na reorganização do poder estadual, o que torna mais difícil separar discurso de interesse.
Há ainda um componente estrutural. O Rio de Janeiro se tornou, ao longo das últimas décadas, um laboratório de crises institucionais, marcado por sucessivas intervenções judiciais, afastamentos de governadores e disputas entre poderes. Esse histórico criou uma espécie de “efeito de contaminação reputacional” no qual as lideranças associadas ao estado precisam constantemente demonstrar que não reproduzem esse padrão. Para o senador, isso é particularmente sensível, pois em sua tentativa de se apresentar como uma figura mais pragmática e menos instável que seu pai, ele esbarra na necessidade de reagir a um ambiente político que, por natureza, exige posicionamentos mais duros e imediatos.
O que resulta disso é uma tensão permanente entre projeto e circunstância. De um lado, há o esforço de construção de uma candidatura com alcance nacional, que pressupõe moderação relativa, capacidade de negociação e distanciamento das crises locais. De outro, há a realidade de um estado onde o poder está em disputa aberta e onde sua influência política está diretamente em jogo. Ignorar o Rio significaria abrir mão de seu principal ativo. Mas mergulhar na crise, por outro lado, implicaria assumir os custos de um cenário instável e altamente judicializado.
Essa é uma dinâmica que revela um dos traços mais marcantes da política brasileira contemporânea, qual seja, a dificuldade de separar arenas locais e nacionais em um sistema federativo marcado por uma forte interdependência entre poderes e níveis de governo. A crise no Rio, longe de ser apenas um episódio regional, é um vetor que reconfigura estratégias políticas em escala nacional. E no caso de Flávio Bolsonaro, ela tem funcionado como um teste de viabilidade, no sentido de demonstrar sua capacidade de navegar em meio à tempestade (equilibrando lealdade à base, diálogo institucional e gestão de imagem), o que, para alguns analistas, é algo determinante, não para alcançar, mas para consolidar esse protagonismo nacional que almeja.
Fillipi Nascimento é sociólogo. Doutor em Sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco e pesquisador do Insper
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