A visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva aos Estados Unidos, na última quinta-feira, dia 7, representou uma prova de fogo para a diplomacia brasileira, que estudou previamente detalhes da personalidade de cada ator presente no Salão Oval da Casa Branca. A maior dificuldade no diálogo, de acordo com integrantes do governo, é fazer com que o próprio Trump e seus auxiliares deixem explícito o que eles realmente querem em cada tema discutido.
As negociações são muito duras e o desafio é elaborar uma estratégia para não entregar algo que não foi pedido, um exercício constante, tanto nos momentos de preparação do presidente quanto no próprio desenrolar das reuniões, como a que Lula teve com Donald Trump na última semana. Esse é o jeito de negociação de Trump e de seu governo já identificado por autoridades brasileiras.
Some-se a isso a alta capacidade do presidente dos EUA de desfocar o assunto levantado: ele passa para outro tema sem a menor consonância com o que estava sendo tratado. Outro ponto é que, na maioria das vezes, os argumentos apresentados pelos americanos não têm base na realidade ou não estão relacionados aos assuntos em questão. Basta lembrar da desculpa usada por Trump no caso do tarifaço aplicado aos produtos brasileiros, quando ele alegou perseguição ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), condenado pelo STF por tentativa de golpe de Estado. Nesse episódio, essa característica ficou bem explícita.
“Fraqueza argumentativa”
Na reunião da última quinta, ao falar sobre as tarifas, Trump também focou na questão do comércio eletrônico. Para integrantes do governo brasileiro, essa atitude denotou “fraqueza argumentativa”, pois não houve apresentação de elementos que comprovassem que nos últimos anos o Brasil tenha prejudicado os Estados Unidos na área de comércio bilateral. A solução adotada pelos negociadores de Lula é apresentar aos americanos estatísticas produzidas por eles que comprovam as vantagens que as empresas dos EUA sempre tiveram no comércio com empresas brasileiras.
Este jogo de estica e puxa estará presente no cotidiano do grupo de trabalho bilateral criado entre os dois países para formatar um compromisso em torno das negociações sobre tarifas e disputas comerciais. A ideia é tentar reduzir espaço para medidas unilaterais por parte do governo americano. A criação do mecanismo de diálogo foi acertada após a reunião de Lula e Trump, em Washington, com a participação de negociadores de caráter político e técnico. A expectativa é que as conversas tenham início já na próxima semana, com participação do ministro Márcio Elias Rosa, do MDIC (Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior).