Comandar um dos maiores grupos empresariais do Brasil deixou, já há algum tempo, de ser a principal função de Joesley Batista. Além de tocar os negócios na J&F — holding que agrega os investimentos na JBS e em outras nove empresas —, ele tem feito as vezes de “eminência parda” com acessos globais e, nesse papel, tem ajudado governos a solucionar diferentes tipos de crises.
Joesley tem aparecido cada vez mais como peça-chave de negociações entre o governo Lula e outros países. No caso mais recente, foi atribuído a ele o esforço de lobby para que Donald Trump deixasse as diferenças de lado após o tarifaço e aceitasse conversar simpaticamente com o presidente brasileiro.
Na semana passada, antes do encontro dos dois presidentes na Casa Branca, o empresário chegou a viajar a Washington para acompanhar tudo de perto, embora não estivesse oficialmente a comitiva de Lula.
Antes, ele serviu de porta-voz do governo Trump ao se reunir com o então ditador da Venezuela, Nicolas Maduro, em novembro passado, e comunicar que o então ditador deveria deixar o poder.
O todo-poderoso dono da J&F, segundo o jornal americano New York Times, havia se encontrado com o secretário de Estado Marco Rubio. O recado foi ignorado de início, e meses depois Maduro foi preso e levado para os Estados Unidos.
Joesley também teve participação ativa na negociação, como mostrou o PlatôBR, para que Trump recebesse Lula na Malásia em outubro do ano passado. Na mesma viagem do presidente à Ásia, ele ajudou o governo brasileiro a intensificar as relações com os governos da Malásia e da Indonésia.
Tarifaço
A entrada de Joesley na Casa Branca e a proximidade com Trump foi facilitada pelo embaixador Richard Grenell, expoente do movimento Maga (Make America Great Again) e conselheiro do presidente americano. Foi Grenell quem articulou uma visita de Joesley ao republicano na Casa Branca, na qual o dono da JBS argumentou que o tarifaço imposto ao Brasil estava custando caro para brasileiros e americanos.
Com as credenciais de quem deu dinheiro para a festa de posse de Donald Trump (US$ 5 milhões, doados por uma subsidiária do grupo), Joesley pediu que as medidas fossem revistas. O pedido surtiu efeito e o presidente americano, a partir de então, passou a agir de forma menos incisiva no trato com as demandas do Brasil.
A influência política do empresário agora está posta à prova. O governo americano iniciou uma megainvestigação sobre a indústria de carne no país, onde a J&F ocupa papel de destaque, por suspeita de “práticas anticompetitivas”.
No alvo das apurações estão quatro grandes empresas do setor, responsáveis por cerca de 85% do mercado americano. Duas dessas gigantes são brasileiras: a JBS Foods USA e a National Food, controlada pela MBRF. Em seu mais novo desafio internacional, Joesley terá que sensibilizar as autoridades dos Estados Unidos para se livrar das possíveis sanções e, de quebra, seguir dando as cartas onde nem o topo do governo brasileiro conseguia chegar.