NOVA YORK – A busca por caminhos para aprofundar ainda mais as relações comerciais, políticas e diplomáticas entre Brasil e Estados foi tema do Brasil- U.S. Industry Day, evento promovido pela CNI (Confederação Nacional da Indústria), em parceria com a U.S.Chamber of Commerce, no último dia 11 de maio, na Glasshouse, em Nova York.

O encontro reuniu mais de 500 empresários, investidores e autoridades dos dois países para debater a cooperação econômica bilateral e fortalecer a integração produtiva em setores estratégicos. Essa foi a primeira edição do evento na Brazil Week, a tradicional semana de debates que, todos os anos, discute na cidade americana os laços entre as duas nações.

No discurso de abertura, o presidente da CNI, Ricardo Alban, afirmou que, mesmo com os desafios impostos pela decisão dos Estados Unidos de impor tarifas extras aos produtos brasileiros, é necessário avançar na construção de uma relação bilateral mais previsível e equilibrada, com maior integração produtiva.

“Devemos aproveitar a convergência de objetivos e combinar a base produtiva e os recursos naturais do Brasil com a liderança tecnológica e a capacidade de investimento dos Estados Unidos para gerar ganhos mútuos. Podemos, por exemplo, ampliar as parcerias produtivas, avançar na digitalização do setor industrial e fortalecer setores industriais estratégicos, como o de minerais críticos”, disse. Alban também defendeu o aprimoramento da relação bilateral como chave para que Brasil e Estados Unidos se tornem mais competitivos globalmente.

“O fortalecimento das nossas relações é essencial para ampliar a resiliência da economia, a segurança na oferta de suprimentos e a competitividade dos dois países”, afirmou.

O vice-presidente e diretor internacional da U.S.Chamber of Commerce, John Murphy, acredita que o melhor da parceria entre Brasil e Estados Unidos ainda está por vir. Para ele, este é um momento de olhar para o futuro e aproveitar as novas oportunidades de parcerias e cooperação que os dois países carregam.

“A cooperação entre Estados Unidos e Brasil deve continuar e é importante para o desenvolvimento econômico dos dois países. E isso deve continuar de forma mais intensa nos próximos anos, independentemente de quem for o governante”, discursou, perante uma seleta plateia, composta essencialmente por autoridades, executivos e donos de algumas das maiores empresas com atuação nos dois países.

Debates estratégicos
Após as boas-vindas, a programação contou com dois painéis. O primeiro foi sobre as prioridades para o fortalecimento econômico da relação, com moderação da diretora global de política de comércio e investimentos da gigante de produtos químicos Dow, Lisa Schroeter.

Entre os palestrantes estavam o presidente do conselho de administração da Gerdau, André Gerdau, a CEO da divisão de alimentos para a América Latina, vice-presidente executiva e diretora de estratégia e transformação da PepsiCo, Athina Kanioura, a vice-presidente sênior e diretora de política global e relações pública da Merck, Jenelle Krishnamoorthy, e o vice-presidente executivo da Vale, Sami Arap.

Eles defenderam que o momento atual é de diálogo e de pensar em caminhos possíveis para que novas parcerias sejam feitas, já que ambos os países têm oportunidades de ganho se caminharem mais juntos.

Gerdau destacou que a empresa que leva o seu sobrenome começou como uma fábrica de pregos no Brasil há 125 anos, migrou, iniciou operações na América do Norte em 1989 e percorreu uma trajetória que permitiu que a região responda, hoje, por 70% do resultado da companhia. “Nossa estratégia tem sido estar perto dos clientes. Com as tarifas, isso mexeu com todas as cadeias. O desafio se tornou aumentar o diálogo e a negociação. O diálogo é o caminho e já vemos isso avançando nas conversas entre os dois países”, afirmou.

Financiamento e estabilidade
O segundo painel, “Financiando o futuro: oportunidades de investimento no Brasil”, foi moderado pelo embaixador Roberto de Azevêdo, ex-diretor-geral da OMC (Organização Mundial do Comércio) e presidente da 9G Consulting and Advisory Services.

Participaram, ainda, o co-chairman global de Corporate Investment Banking do Bank of America, Alexandre Bettamio, o diretor de desenvolvimento produtivo, inovação e comércio exterior do BNDES, José Gordon, o presidente do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), Ilan Goldfajn, e o presidente do TCU (Tribunal de Contas da União), Vital do Rêgo. Bettamio defendeu que o principal desafio do Brasil para ter acesso a mais recursos para investir em projetos em todos os setores da economia passa pelo ajuste das contas públicas. Segundo ele, o equilíbrio fiscal vai garantir ao país o grau de investimento e ampliará de US$ 2 trilhões para US$ 50 bilhões o capital disponível para financiar investimentos.

“Uma vez acertado o fiscal, o capital vai entrar no Brasil. Isso é importante, e o Brasil é atraente. O país tem mais de 200 milhões de pessoas e mais de US$ 2 trilhões de PIB. Mais de 90% da matriz energética é de energia limpa. Somos os maiores produtores de proteína do mundo e de diversos outros produtos. Temos várias competências”, afirmou.

Para Vital do Rêgo, é preciso mitigar a burocracia e ampliar a segurança jurídica no Brasil para que o país cresça, avance na atração de capital e gere renda, empregos e riquezas para trabalhadores e empresas.

“A burocracia representa um entrave e é uma herança que recebemos desde a colonização. Temos um papel firme para diminuir a burocracia e destravar aspectos que atrasam o desenvolvimento, disse o ministro. “Não há investimento sem segurança jurídica. E estamos avançando com isso”, emendou.

Prêmio industrial

Em Nova York, a CNI entregou o Brasil-U.S. Industry Award, um prêmio voltado para o reconhecimento a empresas e instituições que contribuem de forma estratégica para fortalecer as relações econômicas entre Brasil e Estados Unidos. A honraria foi apresentada como o “Oscar da Indústria”. Foram destacadas iniciativas do setor privado, de universidades e de outras instituições de ciência e tecnologia, tanto brasileiras quanto americanas, que impulsionam a integração produtiva, a inovação e a transformação industrial.

Entre os premiados estavam Wesley Batista (J&F e JBS), Marcos Molina (MBRF), André Gerdau (Gerdau), Marco Stefanini (Grupo Stefanini), Athina Kanioura (Pepsico) e Jenelle Krishnamoorthy (Merck).