A cinco meses das eleições, o jogo está sendo travado nas entranhas do STF em relação à delação de Daniel Vorcaro.
Desde o primeiro momento, a relação entre os advogados do dono do Banco Master e os investigadores nunca foi exatamente boa. Não que houvesse obrigação de ser. Mas pairavam, e ainda pairam, desconfianças mútuas.
Parte-se do princípio básico de que qualquer delação, assim como acordos de leniência, exige boa-fé. Investigadores perceberam logo na largada que Vorcaro estaria disposto a admitir malfeitos, mas relutaria em iluminar todas as camadas do esquema, preservando figurões.
André Mendonça, relator do caso no STF, sabe que há movimentos, inclusive internos, para enfraquecê-lo na função. Até aqui, tem mantido distância segura do processo, aguardando, como juiz, a análise da proposta de colaboração por parte da PF e do MPF. E defendendo que as investigações precisam seguir, com ou sem acordo.
O que Mendonça sabia concretamente sobre a delação chegava a ele — porque já não chega mais — pelos próprios advogados, que eram recebidos em seu gabinete. Com a confiança rompida, o ministro tomou uma decisão incomum para seu estilo: deixou de receber a defesa de Vorcaro. Agora, a comunicação com o gabinete ocorre apenas pelos autos.
A percepção no meio jurídico de Brasília é a de que há uma estratégia em curso: colar em Mendonça a imagem de “parcial” para, mais adiante, alegar vício no processo e, diante de um eventual veto à delação, recorrer à Segunda Turma da corte. Ali, Vorcaro acredita ter mais chances de ser solto sem precisar abrir tanto a boca.
A discrição de Mendonça pode ajudá-lo mais do que nunca. A guerra de narrativas nos bastidores se intensificou nos últimos dias e tem alimentado uma animosidade que existe desde o início. Ninguém mais confia em ninguém nesse processo, com exceção de Vorcaro, que parece confiar bastante no desfecho que imagina estar por vir.