Sem o pragmatismo do mau político, o bom político não se estabelece
Recentemente, tive um pequeno embate com o senador Eduardo Girão pelo Instagram. Em uma postagem, ele mencionava sua preocupação (justa e honesta) com a saúde de Filipe Martins, novamente encarcerado por um crime, no mínimo, altamente questionável. Comentei que, se ele quisesse realmente trabalhar pela sua soltura e dentro das possibilidades que a política permite, o melhor seria abrir mão da pré-candidatura ao governo do Ceará e apoiar a eleição de Ciro Gomes contra o PT e seus aliados. Exigir um olhar para o Filipe seria uma das muitas outras condições que poderiam ser negociadas. E tudo dentro da legalidade e da ordem republicana. Mesmo porque a última coisa de que o senador precisa são facilidades, benesses ou contratos. Não precisa, e não aceita.
De maneira absolutamente cordial e elegante, fui questionado pelo senador se, na política, valia tudo para se eleger. Seu argumento era válido: compensa à direita e à centro direita do estado do Ceará se aliar a um candidato de centro-esquerda que tanto fustigou o bolsonarismo e a direita de maneira ampla como Ciro Gomes? E aí, vale tudo para ganhar uma eleição?!
Abordar essa perspectiva apresentada pelo senador é muito mais complicado do que parece, já que numa primeira análise, a resposta ideológica deveria ser um inquestionável NÃO. Mas na política atual, precisamos compreender que a ideologia se comporta apenas como mais uma variável, e não como um guia doutrinário para decisões importantes. Somam-se a ela os resultados das pesquisas de opinião, a composição de forças, a amplitude da lembrança do nome, o histórico eleitoral, a idade do candidato, seu desempenho em redes sociais, simpatia, eloquência, e outras tantas… e isso é tão verdade que existem hoje 30 partidos regulares e mais de 20 buscando a regularização no Brasil. Se as motivações fossem apenas ideológicas, haveria necessidade de um número tão grande? É óbvio que não.
Outra coisa a se analisar no debate é a postura pragmática que une os políticos de maior sucesso em nosso país. E a lista não é tão longa assim. O maior de todos os exemplos só virou quem é quando trocou a cabeleira desgrenhada e a barba à Rasputin (ícones visíveis de um viés ideológico) por ternos bem cortados e um tom de voz nada panfletário. Juntou-se a isso uma postura reiterada do mais absoluto pragmatismo, entregando aliados, traindo companheiros de longa data e abraçando rivais históricos, mesmo sob o preço do mais puro cinismo. Luiziane Lins, Raquel Lyra, Luciana Genro, Plínio de Arruda Sampaio e próprio Ciro Gomes estão aí pra não deixar mentir. E na outra ponta da mesma linha temos nomes como nosso vice-presidente. Quer prova maior de pragmatismo que isso?
Quem entra numa eleição tem que entender que existem quatro resultados possíveis, e não dois como a maioria pensa: ganhar, perder, perder ganhando e ganhar perdendo. Os maus políticos que sempre vencem entenderam rápido que ganhar ou ganhar perdendo é muito melhor que qualquer outro resultado. Para o bom político, isso não é fácil de ler, principalmente num comentário do Instagram.
Pedro Senna é publicitário, analista político e profissional de marketing eleitoral
Os artigos publicados nesta seção não refletem, necessariamente, a opinião do PlatôBR.