O vaivém de propostas de delação de Daniel Vorcaro, preso há três meses, expõe uma negociação marcada por medo, ilusão e tentativas de manipulação.
De um lado, investigadores tentam extrair o máximo de informações possível, com o menor esforço. Do outro, Vorcaro busca entregar o mínimo e obter o maior benefício.
É um jogo em que o banqueiro e advogados desconhecem o tamanho do material já reunido pelos investigadores a partir do conteúdo encontrado nos celulares apreendidos.
A coluna ouviu, sob reserva, advogados especializados em colaboração premiada. Eles avaliam que Vorcaro certamente já revelou muito, inclusive detalhes antes desconhecidos pelos investigadores.
Mas, como a Polícia Federal e o Ministério Público dispõem de um volume maior de informações, a percepção é de que Vorcaro não está propriamente colaborando, e, sim, selecionando o que entregar. Isso ajuda a explicar a resistência às propostas apresentadas até aqui.
No meio jurídico que atuou em delações da Lava Jato, a comparação é inevitável. A avaliação é de que, se não fosse quem é Daniel Vorcaro, a bronca dos investigadores já teria sido ainda maior e ele teria retornado em definitivo ao presídio.
“Vorcaro é manipulador e continua achando que tem controle absoluto, com aquela lógica do banqueiro que acredita poder comprar tudo e todos o tempo inteiro. Mas ele perdeu totalmente o controle neste momento. Achou que conseguiria fechar uma delação rapidamente e sair da cadeia. Não conseguiu. Ainda não entendeu que está em um ambiente inóspito, sem controle”, afirmou um advogado com mais de duas décadas de atuação nos tribunais superiores.
Além disso, a leitura em Brasília é de que há forte pressão, por razões óbvias, para “manter esse jogo em aberto”, com interlocutores atuando no “meio de campo”.
“Há uma questão importante: o Vorcaro também sente medo. Há muita pressão e chantagem sobre ele. Existe uma série de pessoas dizendo para ele não abrir a boca, prometendo liberdade e proteção. É muita gente tentando vender caro a própria influência”, disse outro advogado especializado em delação.