O presidente Luiz Inácio Lula da Silva já tem pronto o discurso para responder às suspeitas que envolvem o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), no escândalo do banco Master. Lula vai dizer que seu governo confere total autonomia à Polícia Federal, ao ponto de não interferir na investigação. Wagner é alvo da nona fase da Operação Compliance Zero, deflagrada nesta quinta-feira, 18, que apura supostos crimes na relação entre o Master e integrantes do PT da Bahia.

O empresário baiano Augusto Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro, é outro alvo da operação. Ele vive em Brasília, com tornozeleira eletrônica, e teve seus endereços vasculhados na manhã desta quinta. Foi Lima quem montou, quando Jaques Wagner ainda era governador da Bahia, um sistema de crédito consignado para servidores públicos, o Credicesta, que depois foi incorporado às operações do Master e passou a ser um dos principais ativos do banco.

O discurso de Lula para reagir ao envolvimento de petistas no caso já vem sendo construído há bastante tempo. É o mesmo, aliás, que foi usado em relação a seu filho mais velho, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, investigado por suspeita de ligação com o bilionário esquema de fraudes no INSS. Lula também recorreu ao argumento da autonomia da PF ao tratar das acusações contra seu irmão José Ferreira da Silva, o Frei Chico, cujo nome também apareceu no escândalo do INSS.

Outro elemento do discurso do presidente é a defesa do contraditório, já usado inclusive em relação a investigações que envolvem adversários políticos: o presidente sempre defende que todos têm direito de se defender e são inocentes até serem julgados e condenados. Lula retornou a Brasília na madrugada desta quinta após participar na França, como convidado, da reunião do G7. O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, integrou a comitiva presidencial na viagem.

As suspeitas
A PF investiga a suspeita de que Jaques Wagner recebeu vantagens indevidas de Daniel Vorcaro por meio de uma empresa da mulher do enteado dele. Entre as vantagens estaria um apartamento em Salvador avaliado em R$ 2,5 milhões. Além disso, Wagner também teria recebido ingressos no valor de R$ 63 mil para o camarote de um show em Los Angeles, nos Estados Unidos. As provas foram obtidas pelos policiais no celular de Augusto de Lima, que havia sido apreendido anteriormente.

A investigação ainda aponta que Wagner atuava em favor do Master no Senado e junto ao governo, e indica temas de interesse do banco tratados pelo senador diretamente com Augusto Lima. Entre esses temas estão a elevação da margem consignável do salário de trabalhadores e aposentados e a tentativa de aprovação da chamada “Emenda Master”, uma PEC apresentada pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI), outro parlamentar intimamente ligado ao esquema, para aumentar o limite de cobertura do FGC (Fundo Garantidor de Crédito) para investimentos. Os investigadores mencionam ainda as tratativas para a aquisição do Master pelo BRB, o Banco de Brasília.

Relação íntima
Além de líder do governo, Jaques Wagner é amigo pessoal de Lula e, há décadas, um de seus principais conselheiros. Nos últimos meses, muitos petistas e integrantes do governo passaram a defender a saída de Wagner da liderança no Senado, somando ao já esperado surgimento do nome do senador nas investigações Master a sua atuação desastrosa no processo que levou à rejeição da indicação do ministro do Jorge Messias (Advocacia-Geral da União) para o STF (Supremo Tribunal Federal).

Apesar de esperada, a operação desta terça traz consequências graves para a pré-campanha de Lula, uma vez que a Bahia é o estado em que o presidente costuma ter o seu maior percentual de votos.