A permanência, pelo menos no primeiro momento, do senador Jaques Wagner (PT-BA) na liderança do governo no Senado é uma aposta de que o esvaziamento do Congresso esfriará a temperatura do escândalo provocado pela 9ª fase da operação Compliance Zero. Wagner foi alvo nesta quinta-feira, 18, de mandados de busca e apreensão autorizados pelo ministro do STF André Mendonça e cumpridos pela Polícia Federal.
Na próxima semana, a atividade legislativa será praticamente nula, pois os parlamentares, principalmente do Nordeste, aproveitam os festejos juninos para comparecer às bases eleitorais. Em julho, serão duas semanas de Congresso ativo, mas também esvaziado devido à proximidade do período eleitoral.
Esse calendário pesou para que Lula optasse por segurar no cargo o senador de quem é amigo há mais de 40 anos. A decisão de continuar na liderança foi anunciada pelo próprio Wagner depois de uma conversa por telefone com o presidente.
Um integrante do governo explicou o voto de confiança. “Isso não afetará Lula. O que estão fazendo é um estardalhaço que tende a arrefecer nas próximas semanas”, indicou um integrante do governo. Retirada a caixa de ressonância do Congresso, entendem governistas, a batalha ficará restrita às redes, ambiente em que é possível rivalizar com os escândalos envolvendo Flávio Bolsonaro, o principal adversário de Lula.
“Presunção de inocência”
Alguns petistas defenderam a saída do senador do cargo no Senado. O deputado Rogério Correa (PT-MG), por exemplo, seguiu na linha “doa a quem doer”. “Na condição de investigado, Jaques Wagner deve se afastar da liderança do governo para se dedicar à sua defesa, resguardada a presunção de inocência”, afirmou o parlamentar nas redes antes da decisão de Lula de manter o amigo no cargo.
Na prática, o futuro do líder do governo vai depender do andamento das investigações da PF. Se as denúncias avançarem, Wagner “sangrará” no cargo e se tornará um peso para a campanha de Lula.
De qualquer forma, o Planalto e a equipe de campanha sabem que terão de enfrentar esse debate em condições menos favoráveis do que as que desfrutavam antes desta operação da PF. Antes, Lula e aliados levavam ampla vantagem por causa das revelações sobre o pedido de dinheiro de Flávio a Daniel Vorcaro, do banco Master. Agora, precisam lidar com as denúncias contra Wagner, já exploradas pelos adversários.
Wagner diz que mantém também a candidatura ao Senado. Conta com a força do eleitorado petista no estado para conquistar mais um mandato. O presidente nacional do partido, Edinho Silva, também expressou confiança no senador investigado pela PF.
A chapa na Bahia
Aliado de Wagner na Bahia, o presidente da CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) do Senado, Otto Alencar (PSD-BA), disse que a operação da PF não abala a aliança entre seu partido e o PT no estado. Alencar defendeu que o líder do governo continue candidato para o Senado na chapa composta pelo governador Jerônimo Rodrigues (PT), candidato à reeleição, e pelo ex-ministro Rui Costa (Casa Civil).
Alencar disse que todos têm direito à defesa e que acredita que Wagner, seu amigo, terá oportunidade de apresentar a sua, explicando as acusações. “É preciso ouvir as razões dele. Todo acusado tem direito de defesa”, disse Alencar, em conversa com o PlatôBR.