O mundo político amanheceu nesta quinta-feira, 25, monotemático: a esperada saída de Jaques Wagner da liderança do governo Lula no Senado ficou em segundo plano.
Todos querem entender os movimentos e os desdobramentos do vídeo gravado por Michelle Bolsonaro que, até o momento da publicação deste texto, acumula quase 11 milhões de visualizações.
“Minha impressão é que ela está preparando a saída da família”, disse à coluna o presidente de um partido de centro.
O impacto na campanha de Flávio Bolsonaro é certo. Há quem diga que é até maior do que o provocado pelo áudio do pré-candidato do PL cobrando dinheiro de Daniel Vorcaro.
Não há ninguém no PT que faria algo semelhante com Lula. Nem Janja, que gosta dos holofotes, gravaria um vídeo nesse tom contra filhos do presidente, com quem também não mantém uma relação exatamente próxima.
Se Jair Bolsonaro sabia ou autorizou a gravação dos 27 minutos da esposa, ainda não se sabe. Mas Michelle sabia exatamente o que fazia. Ela ouve há algum tempo que há “mais coisas” para surgir contra o enteado. Definitivamente, não foi um arroubo improvisado, embora haja quem avalie que o vídeo soe como o desabafo de alguém que “cansou de apanhar calada”.
A fala é forte e certeira. Michelle é uma senadora virtualmente eleita pelo Distrito Federal. Com o vídeo, porém, mostrou que quer mais, embora não diga isso explicitamente. Consolida-se como um nome nacional, e sem volta.
Há na direita, e até mesmo no bolsonarismo mais ideológico, um grupo que defende abertamente que Flávio deixe a disputa. As convenções que confirmarão as chapas ocorrerão entre o fim de julho e o início de agosto. Até lá, muita coisa pode acontecer.
Se Michelle queria ou não ser vice de Tarcísio de Freitas, chapa considerada por muitos a ideal da direita, isso já não parece importar. Michelle quer ser o próprio nome do PL. Quer herdar o espólio do bolsonarismo, desgarrando-se dos desgastes do sobrenome que a projetou. E Valdemar Costa Neto, presidente do partido, que está nos Estados Unidos acompanhando os jogos da Copa, quer “ganhar em outubro, mesmo perdendo”, como se costuma dizer na política.
Ainda que não seja candidata ao Planalto neste ano e que Flávio permaneça na disputa, Michelle passa a ser, a partir de agora, um quadro incontornável da política nacional.
“Essa mulher é a principal mexida da política. Esse mundo evangélico veio para ficar na política do Brasil, e ela representa isso”, afirmou à coluna um ex-governador.
Michelle não falou apenas para os evangélicos. Como esta coluna escreveu ainda ontem, falou para quem quisesse ouvir, incluindo os chamados eleitores independentes, que costumam decidir eleições. Falou para as mulheres, basicamente carimbando Flávio como “machista”. Falou para quem tem ojeriza à política convencional e ao sistema — algo semelhante ao que o marido fez em 2018, com a diferença de que ele próprio era um político tradicional e parte do sistema.
O timing do vídeo para Flávio é péssimo. Nos últimos dias, em razão do desgaste do episódio envolvendo Jaques Wagner, que levou o caso Master para o colo de Lula, os trackings da pré-campanha mostravam uma recuperação do filho do ex-presidente. Agora, ele se vê nocauteado mais uma vez.
Aliados de Flávio pressionam por uma reação de Valdemar. Querem que o dirigente retire Michelle do comando do PL Mulher por considerá-la “insubordinada”. Avaliam que ele “criou um monstro”. Mas Valdemar também sabe o que faz. Se isso ocorrer, Michelle tende a sair ainda mais forte. O vídeo já produziu efeito. É como uma dança de TikTok que gruda na cabeça por um bom tempo. Pelo menos até o próximo viral.