A saída de Michelle Bolsonaro da presidência do PL Mulher, anunciada nesta terça-feira, 30, coloca em evidência uma discussão que ganhou relevância nesta eleição: a dificuldade das mulheres em ocupar espaços na política. Ela disse ter tomado a decisão para se dedicar “integralmente” aos cuidados do marido, Jair Bolsonaro, e da filha do casal.

A ex-primeira-dama deixa o cargo no meio de um ruidoso conflito com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), seu enteado e pré-candidato ao Planalto. Na semana passada, Michelle divulgou um vídeo que abalou a pré-campanha de Flávio ao dizer que se sentiu desrespeitada e humilhada por ele, que a teria excluído das decisões do PL. O empresário Paulo Figueiredo, aliado de Flávio que mora nos Estados Unidos, ainda reagiu dizendo que “mulher vota muito mal”.

No confronto da madrasta com o enteado, prevaleceu a vontade da direção masculina da legenda presidida por Valdemar Costa Neto.

Tema periférico
As mulheres somam 52% do eleitorado, de acordo com o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), mas a discussão sobre direitos, as chances de empoderamento, violência de gênero, divisão do trabalho, entre outros pontos que afetam a vida das mulheres, são geralmente tratados como periféricos nas campanhas.

Considerando as duas principais candidaturas, Flávio tem mais dificuldades em conquistar o voto feminino. Ele tenta reverter esse fraco desempenho com um encontro com mulheres da direita, mas tem sofrido desfalques importantes, como a senadora Damares Alves (Republicanos-DF), amiga de Michelle, que já avisou que não comparecerá.

Lula se alinha um pouco mais à posição das mulheres, mas também comete suas gafes, seja por dificuldades em modernizar sua linguagem, seja pela falta de empenho em assumir uma proposta que vá além da questão da violência, reconhecidamente grave na sociedade brasileira. Não houve por parte do petista, por exemplo, nenhuma sinalização de que defenderá a paridade de gênero para cargos no Executivo.

Opostos se juntam
Países como o México já adotaram esse modelo para todos os poderes. Lula evita falar sobre paridade de gênero em seus ministérios, um tema que o coloca em dívida com a pauta feminista.

Adversários na política, o PT e o PL estão entre os partidos que apresentaram ao TSE um questionamento sobre a lei que destina maior volume de recursos eleitorais para mulheres e negros. As duas legendas pleiteiam que a regra seja válida apenas para as eleições proporcionais (deputados federais e estaduais) e não seja aplicada para os cargos majoritários (presidente, senadores e governadores).

Os partidos de Lula e Flávio também estiveram juntos na aprovação, no Congresso, da anistia das multas aplicadas pela Justiça Eleitoral pelo descumprimento da regra de distribuição da verba de raça e gênero nas últimas eleições.