O recuo do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), diante do projeto que equipara a misoginia ao crime de racismo é tratado como uma “quebra de confiança” na relação dele com a bancada feminina, que esperava ver a proposta votada até o recesso parlamentar, marcado para começar na próxima sexta-feira, 17. Ao ser cobrado nesta semana por deputadas de centro e da esquerda, Motta disse que ele não se opunha à proposta — no entanto, a maioria dos líderes não quer a votar o texto.

Como presidente, Motta tem a prerrogativa de pautar o projeto, mesmo sem a concordância dos líderes. Mas ele vem segurando a votação para não desagradar à bancada religiosa, grupo que identifica a proposta como limite à liberdade religiosa. O motivo da resistência é que pastores e integrantes da bancada evangélica querem liberdade para defender conceitos como a obediência das mulheres aos seus maridos e a ideia do homem como chefe da família, sem que sejam alcançados pela nova legislação.

Nesta terça-feira, 14, representantes da bancada feminina chamaram uma entrevista coletiva para pressionar Motta a cumprir o combinado em março, mês da mulher, quando ele, ao participar de um evento, chegou a tirar fotos (imagem em destaque) na frente do Congresso com todas as deputadas e se comprometeu a dar prioridade às pautas apresentadas por elas. 

“Foi feito um compromisso não só com a bancada feminina, mas com as mulheres do nosso Brasil, de que a gente votaria essa matéria antes do recesso e é por isso que estamos aqui, há tantas semanas, construindo esse consenso possível”, disse a deputada Tabata Amaral (PSB-SP), relatora da proposta, que fez concessões no texto para tentar quebrar a resistência dos religiosos. “O texto que eu já apresentei não é o texto dos meus sonhos e acho que não é o texto dos sonhos de nenhuma dessas mulheres aqui. Mas é o texto possível para que a gente possa deixar as diferenças pequenas de lado, deixar a eleição de lado”, disse a parlamentar.