A representação do comércio no labirinto: entre a reforma e a irrelevância
Instituições não se tornam irrelevantes porque mudam. Tornam-se irrelevantes porque deixam de mudar.
Poucas reflexões são tão atuais para o sistema sindical patronal brasileiro quanto essa.
O comércio, os serviços e o turismo constituem a principal força empregadora do país e respondem por parcela significativa da atividade econômica nacional. Ainda assim, a capacidade de influência de suas entidades representativas não acompanha a dimensão dos desafios que esses setores enfrentam nem a importância que têm para o desenvolvimento do Brasil.
A questão central não é econômica. É institucional.
O Brasil mudou profundamente nas últimas décadas. A economia tornou-se mais aberta, mais tecnológica e mais competitiva. O perfil do empresário também mudou. Surgiram novos modelos de negócios, novas formas de trabalho e novas demandas da sociedade por eficiência, transparência e participação.
Nesse contexto, nenhuma instituição pode acreditar que sua relevância será preservada apenas pela tradição. Representatividade precisa ser permanentemente renovada.
O primeiro passo é fortalecer a transparência. Entidades que representam interesses econômicos relevantes devem prestar contas de forma clara, divulgar resultados e demonstrar aos seus representados o impacto concreto de sua atuação. A confiança deixou de ser consequência natural da existência das instituições. Hoje, ela precisa ser construída e renovada continuamente.
O segundo passo é investir em governança. Instituições fortes não são aquelas que se organizam em torno de pessoas, mas aquelas que desenvolvem regras capazes de assegurar continuidade, estabilidade e renovação. A sucessão de lideranças não deve ser percebida como fator de instabilidade, mas como parte da própria estratégia de fortalecimento institucional.
As experiências internacionais apontam nessa direção. Em diferentes países europeus, entidades patronais exercem papel relevante nas negociações trabalhistas e na formulação de políticas públicas porque combinam capacidade de representação com elevados padrões de governança. Na França, o MEDEF estabelece limite para a recondução de seu presidente. Na Alemanha, na Dinamarca, na Noruega e na Suécia, a escolha das lideranças ocorre por processos periódicos, conduzidos por órgãos colegiados e comitês de indicação. Em comum, esses modelos demonstram que transparência, alternância e estabilidade institucional não competem entre si; ao contrário, reforçam-se mutuamente.
Outro desafio é ampliar a participação dos empresários, sobretudo dos pequenos e médios. Representação efetiva exige proximidade com a base, abertura ao diálogo e capacidade de incorporar novas lideranças e diferentes visões sobre os rumos da atividade econômica.
Também é preciso ampliar o papel das entidades representativas. Defender interesses legítimos continua sendo uma missão essencial, mas já não é suficiente. O país precisa de instituições capazes de antecipar tendências, formular propostas, contribuir para a qualificação da mão de obra, estimular ganhos de produtividade e participar da construção de um ambiente de negócios mais competitivo.
As transformações econômicas acontecem em velocidade crescente. Instituições que apenas reagem às decisões tomadas por outros acabam perdendo capacidade de influência. O protagonismo não decorre apenas da representatividade formal, mas da qualidade das ideias, da capacidade de mobilização e da disposição para participar das grandes discussões nacionais.
Por isso, a pergunta que deve orientar o futuro da representação empresarial é simples: queremos preservar estruturas ou fortalecer instituições?
A resposta definirá o papel que o sistema sindical patronal exercerá na próxima década. Modernizar não significa romper com sua história. Significa reconhecer que instituições duradouras são aquelas que preservam seus princípios enquanto renovam suas práticas.
Modernizar a representação não é apenas uma agenda interna das entidades. É uma contribuição necessária para fortalecer a democracia econômica, melhorar o ambiente de negócios e ampliar a capacidade de o país gerar emprego, renda e desenvolvimento.
Laércio Oliveira é senador da República pelo PP de Sergipe
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