Kassio Nunes Marques chegou ao Supremo Tribunal Federal em novembro de 2020, em meio à pandemia da Covid-19.
Na época da indicação pelo então presidente Jair Bolsonaro, o nome foi considerado uma surpresa. Nunes Marques não aparecia na bolsa de apostas dos bastidores de Brasília.
Chegou a se atribuir a indicação ao senador Ciro Nogueira. Nunes Marques tinha forte relação com a OAB do Piauí, estado de Ciro, da qual foi conselheiro. Os dois realmente se conheciam. Mas a história real não foi contada porque a avaliação era de que ninguém acreditaria.
Coisa de um ano antes das eleições de 2018, o então deputado federal Jair Bolsonaro almoçava em um restaurante self-service da Vila Planalto, bairro de pioneiros de Brasília localizado próximo à Esplanada dos Ministérios, quando esbarrou em Nunes Marques, então desembargador do TRF-1, que tem sede em Brasília.
Ali, os dois trocaram telefone e viraram amigos de mensagens — e figurinhas, uma especialidade do ex-presidente.
Nunes Marques viu naquele encontro uma oportunidade de se aproximar de um presidenciável, com a intenção de tentar uma vaga futura no STJ, o Superior Tribunal de Justiça. Era esse o foco.
Tempos depois do encontro casual no restaurante, entre o primeiro e o segundo turno da corrida presidencial de 2018, Nunes Marques pegou um avião e foi até o Rio de Janeiro visitar o então candidato, que se recuperava da facada recebida durante a campanha.
Bolsonaro gostou do gesto e permitiu a aproximação do desembargador.
Já presidente, Bolsonaro, rodeado de bajuladores, mas de poucos amigos, passou a convidar Nunes Marques para assistir a jogos de futebol no Palácio da Alvorada, aos domingos.
Nesses encontros, os dois tomavam Tubaína, um refrigerante de guaraná com aroma de tutti-frutti. Por isso, Bolsonaro viria a dizer que buscava para o STF um perfil que aceitasse “tomar Tubaína” com ele para conversar de maneira informal.
Nas idas ao Alvorada, Nunes Marques foi apresentado a lideranças do Centrão que chegavam ao governo e aos filhos do presidente, incluindo o hoje candidato do PL à Presidência da República, Flávio Bolsonaro. Na época, Flávio estava às voltas com investigações sobre suspeitas de rachadinha durante o período em que foi deputado estadual no Rio de Janeiro.
Era outubro de 2020 quando o telefone de Nunes Marques tocou durante uma sessão do TRF-1.
A ordem era para que ele fosse imediatamente ao Palácio do Planalto, porque Bolsonaro queria tratar com ele de um assunto urgente.
Lá chegando, o presidente comunicou que Jorge Oliveira, amigo da família que ocupava a Secretaria-Geral da Presidência da República, não havia aceitado a missão de ser indicado ao STF porque queria ir para o Tribunal de Contas da União, o que acabaria dando certo.
Bolsonaro continuou dizendo que não havia outro nome e que logo indicaria Nunes Marques para o Supremo.
Nunes Marques saiu do Planalto atordoado.
Não houve construção, aviso prévio ou uma longa articulação para a primeira indicação de Jair Bolsonaro ao STF — a segunda seria de André Mendonça. Foi tudo de maneira atabalhoada, a partir da cabeça de Bolsonaro, que chegou a consultar e se reunir com Gilmar Mendes.
Durante uma live, Bolsonaro confirmou a indicação, que seria publicada no Diário Oficial da União no dia seguinte.
“Não adianta chegar um currículo agora aqui, maravilhoso, indicado por autoridades. Se eu não conhecer, não vou indicar”, disse, à época, na transmissão ao vivo.
Nunes Marques foi, então, aprovado pelo Senado e garantiu a vaga aberta com a aposentadoria de Celso de Mello, então decano da Corte.
Seis anos depois, o ministro está à frente do TSE e vai comandar a Justiça Eleitoral nas eleições de 2026.
Seguindo a ordem de antiguidade, deverá assumir a Presidência do STF no biênio 2029-2031.

