Há pouco mais de um ano, a diplomacia brasileira vem experimentando um vaivém de expectativas na relação com os Estados Unidos de Donald Trump. Nesse movimento de altos (que nem são tão altos assim) e baixos, já foi possível perceber que nem sempre o que fica combinado nas conversas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com Trump se reflete, necessariamente, em avanços concretos nas negociações que tentam, por exemplo, reverter as tarifas impostas aos produtos brasileiros importados pelo mercado americano.

Apesar do aparente clima de cordialidade que impera nas conversas entre os dois presidentes, como a que ocorreu na semana passada, por telefone, a máquina que opera no entorno de Trump segue adotando medidas contrárias ao interesse do Brasil. Até por isso, o tom ameno e amistoso do telefonema não chegou a ampliar sensivelmente a esperança dos negociadores brasileiros que tentam avançar nas tratativas para pôr fim ao tarifaço e a outras medidas adotadas pela administração Trump.

Do lado do Itamaraty, os percalços na normalização da relação são atribuídos, em maior medida, a Marco Rubio, chefe do Departamento de Estado americano e declarado parceiro do clã Bolsonaro, que disputa espaço com o presidente no conflagrado cenário político brasileiro. Mesmo após os encontros presenciais de Lula com Trump e das ligações, Rubio ordenou a suspensão de vistos de autoridades do governo brasileiro e endureceu o discurso, como no episódio do vídeo em que os Estados Unidos reivindicam o domínio sobre a América Latina, em uma reedição da Doutrina Monroe. No lance mais recente, o Departamento de Estado cancelou as credenciais da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Viotti.

Essa dissociação entre o que é tratado diretamente por Lula com Trump e os atos concretos do governo americano faz com que assessores do presidente brasileiro não acreditem no arrefecimento das tensões e na normalização das relações diplomáticas, estremecidas desde junho do ano passado, no primeiro tarifaço. A leitura desses auxiliares do presidente é de que a conversa flui no nível mais alto, mas desanda quando desce para as instâncias inferiores. Da conversa de Lula com Trump na última sexta-feira, 21, a equipe do presidente brasileiro comemora o fato de ele ter evitado, ao menos por ora, o risco de o americano declarar apoio a Flávio Bolsonaro, do PL, seu principal rival nas eleições deste ano.