Há um perigo silencioso maquiado de oportunidade nas telas dos nossos celulares. A ideia de que pagar barato em encomendas internacionais é uma vitória do consumidor esconde uma conta amarga que já está sendo cobrada de toda a sociedade. A chamada “taxa das blusinhas” não é uma discussão sobre arrecadação estatal; é um debate sobre a própria sobrevivência da produção e dos empregos no Brasil.

Não existe mágica na economia. A falta de isonomia fiscal entre as grandes plataformas estrangeiras e a produção nacional criou um cenário de concorrência abertamente desleal. Enquanto aplaudimos pacotes a preços irrisórios, assistimos de braços cruzados à sangria do nosso mercado de trabalho.

A destruição de vagas avança como um rolo compressor que não se limita ao vestuário: atinge em cheio as indústrias de calçados, brinquedos e diversos outros setores. Já são mais de 64 mil postos de trabalho fechados no varejo nacional. Tratam-se de milhares de famílias brasileiras que perderam seu sustento para alimentar uma engrenagem que não deixa um centavo de prosperidade real em nosso solo.

Após medidas como a MP 1.357/2026, assistimos à remessa constante de bilhões de reais para fora do país. Quem paga essa conta? Principalmente o pequeno e o médio empresários nacionais, aqueles que abrem a porta todos os dias, geram empregos na sua comunidade e enfrentam uma saga burocrática e fiscal sem paralelos.

Com uma carga tributária média que ultrapassa insanos 100% ao longo da cadeia produtiva brasileira, exigida a cada etapa da fabricação à venda, é simplesmente impossível competir com preços subsidiados por governos asiáticos. Cobrar do empreendedor local uma maratona de impostos e permitir que o concorrente externo corra a mesma prova de bicicleta não é livre mercado, é sabotagem econômica.

Para piorar o quadro, o prejuízo vai além do bolso e atinge a nossa segurança. A enxurrada de produtos que entra no país sem qualquer tipo de certificação técnica burla os padrões mínimos exigidos das empresas brasileiras. Brinquedos e calçados sem testes de segurança e vestuário sem controle de insumos tóxicos entram diariamente nas casas das pessoas sem fiscalização do Inmetro e de outros órgãos.

Exigir igualdade de condições não é defender o protecionismo anacrônico, mas sim proteger quem produz, quem trabalha e quem consome no Brasil. Continuar romantizando a assimetria tributária em nome do consumo imediato é assinar a certidão de óbito da nossa indústria e do nosso varejo.

Cássio Cunha Lima é ex-senador da República e ex-governador da Paraíba