O padre de uma igreja católica em Brasília tomou uma decisão arriscada. Faltando menos de duas semanas para as eleições, convidou os fiéis para discutir fé e política.
Quando a missa das seis da tarde de uma terça-feira acabou, ele pegou uma mesinha simples, colocou-a em frente ao altar, sentou-se diante dela com uma papelada em mãos e começou.
“Vou ler, para que não haja nenhum espaço para uma interpretação equívoca do que vou dizer”, avisou logo Eduardo Peters, padre há 23 anos e um dos principais nomes da Arquidiocese da capital do país quando se trata de funções acadêmicas e de formação.
Os bancos da igreja foram enchendo, mais do que em muitas missas dominicais.
Do lado de fora, o auxiliar do padre Peters mandava cabos eleitorais de um candidato a deputado federal do PL retirarem os banners que, pouco antes do início do encontro, tinham sido espalhados pelo estacionamento e na entrada da igreja.
“A Igreja não é um partido político. O Evangelho não é um programa de governo. A missão da Igreja não consiste em conquistar o poder. E nenhum partido, candidato ou ideologia pode reivindicar para si a identificação plena com o cristianismo. O sacerdote não deve transformar o altar em palanque. A autoridade espiritual não deve ser utilizada para produzir adesão partidária”, disparava o sacerdote, do lado de dentro, onde três candidatos a deputado distrital acompanhavam.
Durante os 76 minutos em que falou sem parar e sem elevar a voz, Peters não citou em momento algum os nomes de Lula, Flávio Bolsonaro ou de qualquer outro candidato.
Quando falou em “dois extremos”, criou-se a expectativa de que fosse mergulhar no debate entre direita e esquerda. Não. Ele se referia ao relativismo, de um lado, e à ideologização da fé, do outro.
“Afinal, em quem a Igreja manda votar?”, perguntou o padre, fazendo os fiéis, já vidrados no discurso, arregalarem os olhos.
“A resposta precisa ser muito clara: em ninguém. Não é função da Igreja indicar qualquer candidato que seja. Se alguém indica, é por sua conta e risco”, emendou, após um silêncio, arrancando risadas e uma certa decepção de alguns.
Permitindo-se fugir da promessa da leitura, o religioso quis frisar:
“É importante que isto fique claro: não existe ninguém no meio político que possa representar de maneira plena a Igreja.”
Entre citações a documentos papais, ao Concílio Vaticano II e à Doutrina Social da Igreja, o padre Eduardo Peters, que estudou em Roma, teve êxito em não morder a isca que talvez os próprios fiéis tenham jogado a ele ao encherem a paróquia.
“Não me perguntem em quem vou votar, porque o voto é secreto”, esquivou-se, assim que o espaço para perguntas foi aberto.
Enquanto as pessoas iam chegando do trabalho — uns nem se lembraram de tirar os crachás — e se acomodando onde ainda havia lugar, Peters continuava dizendo que uma disputa eleitoral “não é um ringue nem uma partida de futebol” e que a “depreciação do outro não pode ser meio para alcançar o poder”.
Foi quando o padre ousou cravar que a divergência entre cristãos numa eleição é “legítima” e “pode ser uma riqueza”.
“Pode existir legítima divergência entre cristãos. ‘Minha solução política é a única solução católica possível’. Não. Dois católicos podem compartilhar o mesmo princípio moral e discordar honestamente sobre a melhor política pública para realizá-lo. E ponto final”, disse, ao mesmo tempo em que algumas senhoras sentadas mais à frente balançavam a cabeça em concordância.
O discurso era bonito.
Mas os fiéis queriam dicas mais concretas, digamos assim. Queriam sair dali com alguma luz divina.
“Suspeitem de qualquer um que queira alcançar o poder enganando vocês. Se mente, essa pessoa não pode ser colocada no poder. Duvidem dos mentirosos”, tentou o sacerdote, convenhamos, sem ajudar muito.
“Entreguem o poder a um perverso e vocês vão ver o que acontece. O problema, muitas vezes, não está nas instituições, mas nos corações”, tentou de novo, mas o nó continuava na cabeça dos fiéis.
Peters seguiu.
Criticou a “imaturidade” da comunidade ao participar da vida social e política somente a cada quatro anos, pontuou que a pluralidade política não pode relativizar a moral e que dignidade da pessoa humana e bem comum são “princípios irrenunciáveis e inegociáveis” na hora de escolher um nome. Também recomendou que projetos de governo fossem avaliados. E opinou que existem pessoas que são “honestamente vocacionadas à política”.
O religioso foi jogando outras pistas no caminho.
Defendeu que o progresso econômico não pode ocorrer a qualquer custo. Que o Estado não pode suprimir iniciativas da sociedade para se tornar “o grande pai de todos e, ao mesmo tempo, de ninguém”. Que a fé não pode ser reduzida a uma postura social. E, mais uma vez, que não é opcional para o cristão relativizar a moral.
“O discernimento eleitoral não consiste em procurar um candidato absolutamente perfeito. Consiste em fazer um juízo moral prudencial diante das alternativas reais. Mas é importante perceber o que isso significa. Não significa chamar o mal de bem. Não significa concordar com tudo o que aquele candidato defende. Não significa entregar a própria consciência a um partido. Significa assumir responsavelmente uma escolha possível numa realidade imperfeita”, comentou.
Ele completou, sem ler:
“Diante do que temos, precisamos discernir o que é melhor. Às vezes, a gente vai ter que fazer um voto numa política de danos.”
Certamente, na cabeça dos fiéis, a fala do padre era adaptada para Lula, Flávio Bolsonaro ou qualquer outro candidato.
“Cuidado com o consensualismo. A opinião da maioria, a decisão da maioria não representa, necessariamente, a verdade e o bem”, ponderou Peters.
Este colunista levantou a mão no momento das perguntas. Quis saber a opinião do padre sobre o voto nulo, uma opção da democracia.
Ele não fugiu da resposta. Disse que é “uma hipótese a ser respeitada” e, veja só, que “não é pecado”.
“Via de regra, não há uma obrigatoriedade de escolha. Mas o voto nulo não elege um representante. Eu não recomendaria”, acabou afirmando.
Pronto. A noite terminou sem que ninguém tivesse sido excomungado nem chamado de comunista ou fascista. Com a missão cumprida, padre Eduardo Peters finalizou com um sermão.
“A Igreja já misturou fé e política e deu ruim. Não compete a nós fazermos proselitismo. A mistura de nomeações políticas e religiosas foi a pior coisa que aconteceu na Igreja Católica. O caminho que algumas igrejas evangélicas [católicas também] estão percorrendo nós já percorremos e não foi bom, não deu certo.”
Antes do “amém” final, o sacerdote externou a surpresa com a igreja cheia.
“O nosso tempo demanda mesmo essa preocupação. E que bom que estamos preocupados. Independentemente do espectro político de cada um, as coisas não estão fáceis”, finalizou.
Não estão. Oremos.

