Pela terceira eleição presidencial seguida, o Brasil chega às urnas dividido entre o lulismo e o bolsonarismo. Em 2026, a disputa coloca novamente frente a frente os dois polos que passaram a dominar a cena política nacional a partir do fim da década passada: de um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e, do outro, o senador Flávio Bolsonaro (PL), que herdou do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, em prisão domiciliar após ser condenado pelo STF por tentativa de golpe, a tarefa de representar o campo bolsonarista. Para especialistas ouvidos pelo PlatôBR, a polarização deve seguir determinando os rumos da política no Brasil.
A rivalidade entre lulistas e bolsonaristas remonta a 2018, em meio à crise política aberta pelas manifestações de 2013, pelo impeachment de Dilma Rousseff e pelos desdobramentos da Lava Jato. O desgaste atingiu não apenas o PT, mas também partidos que, até então, ocupavam o espaço de oposição. Foi nesse ambiente que Bolsonaro viu chances de crescer e chegar ao segundo turno contra Fernando Haddad, lançado pelo PT depois que Lula, preso em razão dos processos derivados da Lava Jato, teve a candidatura impugnada pelo TSE.
O então deputado do baixo clero eleito pelo Rio de Janeiro para sucessivos mandatos, que se construiu como figura nacional rivalizando com o PT, venceu a eleição com 55% dos votos válidos, contra 45% do ex-prefeito de São Paulo. “Ele surge com esse discurso antissistema, embora fosse parte desse sistema desde a década de 1980. E o bolsonarismo se consolida por conta da hegemonia que passou a exercer no campo da direita”, explica Yagoo Moura, doutorando no CPDOC (Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil) da FGV (Fundação Getúlio Vargas).
O petismo parecia ferido de morte. Mas em 2021 o STF (Supremo Tribunal Federal) anulou as condenações que levaram Lula à prisão e abriu caminho para que ele voltasse a disputar o Planalto. Lula, então, derrotou Bolsonaro, candidato à reeleição. Foi o segundo turno mais apertado desde a redemocratização, com uma diferença de pouco mais de 2 milhões de votos. Quatro anos depois, agora é Jair quem preso e, impedido de disputar, escalou seu primogênito como representante. Se, num primeiro momento, Flávio parecia um produto difícil de ser vendido aos seguidores do bolsonarismo, com o passar do tempo ele foi ganhando tração, e a disputa entre os dois polos se desenha, mais uma vez, apertada.
A polarização persiste, em grande medida, graças à falta de outras forças políticas capaz de ganhar relevância na cena nacional. Robson Carvalho, doutor em Ciência Política e pesquisador do IPOL (Instituto de Ciência Política) da UnB (Universidade de Brasília), nesta eleições o fato de Lula e Flávio estarem em larga vantagem em relação aos demais se deve à fragilidade das candidaturas alternativas, que já nasceram com dificuldades para romper a lógica estabelecida entre o petismo e o bolsonarismo.
“O eleitor carece de mais opções, especialmente do centro, à direita. Esses partidos não possuem vida orgânica real, capilaridade nacional ou mesmo uma identidade clara que sinalize ao eleitor o que eles representam, que ideias e que projetos representam”, afirma Carvalho. A dualidade é agravada pela tradição do eleitor brasileiro de votar em quem acredita ter chances de vencer. “O eleitor escolhe o candidato que acredita ter mais chance de derrotar o outro lado. Não é, portanto, um voto de convicção naquele candidato”, acrescenta.
Como retrato mais recente da polarização cristalizada, a pesquisa Datafolha divulgada na última quinta-feira, 1º, mostrou Lula com 42% das intenções de voto, contra 38% de Flávio Bolsonaro — em votos válidos, a vantagem do petista é de 45% a 40%. Os dois concentram, também, as maiores taxas de rejeição (de 45% cada). Se as sondagens eleitorais se confirmarem nas urnas, a tendência é que os candidatos dos dois campos voltem a se enfrentar em 25 de outubro, em um segundo turno que, a exemplo da eleição passada, deve ser decidido voto a voto.

