Se a campanha de Lula (PT) seguir como tem sido até agora, é improvável que ele supere Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno, em 25 de outubro. Numericamente, a vantagem do candidato de direita não é intransponível: 2,2 milhões de votos, menos do que Renan Santos (Missão) recebeu sozinho. Mas revertê-la exigiria de Lula e do PT uma autocrítica inédita – e, a vinte dias da votação, isso é pouco crível.

Qualquer tentativa de reeleição à Presidência da República tem caráter plebiscitário. O povo aprova ou não aprova o governo? Simples assim. O terceiro mandato de Lula foi, em muitos aspectos, abaixo da crítica. Tratar os votos dados a seu oponente como “antipetismo” é infantil. Sim, há antipetistas em massa no país. Há também antibolsonaristas. São muitos. Focar no “antipetismo”, tratando quem não votou em Lula como eleitor irracional, movido só por ódio, é recusar-se a ver o que o resultado diz sobre o governo.

Uns três anos atrás, conversei com um jornalista em Brasília sobre a cobertura da imprensa em relação ao novo governo do PT. Minha impressão era de que muitos veículos estavam pegando leve com um governo que pouco tinha apresentado além da postura “não somos Bolsonaro e vamos recuperar o país do descalabro bolsonarista”. Ele me disse que era exatamente assim que estava trabalhando.

Pois sinto que a falta de postura crítica de parte da grande imprensa em relação ao trabalho dos ministérios fez mal ao governo. Políticas públicas podem melhorar quando são abertamente criticadas. Corrupção, então, muito mais. Denúncias sérias, embasadas por investigações de órgãos como a Polícia Federal e o Ministério Público, deveriam causar, no mínimo, o afastamento do acusado até que ele se explique. É claro que o PL não fez isso durante o governo Bolsonaro. Mas isso é desculpa para o PT não fazer?

Segundo a Polícia Federal, a lobista Roberta Luchsinger – sócia declarada de um filho de Lula, o que ninguém desmentiu – teria pago propina a dois funcionários do Ministério do Desenvolvimento Social nomeados pelo ministro Wellington Dias (PT). A notícia saiu em 23 de setembro. Os dois funcionários continuam nos cargos.

Há ainda a questão do STF. É razoável dizer que Kassio Nunes Marques e André Mendonça decidem a favor da direita com frequência. Mas dizer isso e ignorar que Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e Flávio Dino fazem o mesmo pela esquerda, com tanta ou mais desfaçatez, é cegueira sectária. Desses cinco, pelo menos três merecem processo de impeachment no Senado. Muitos brasileiros votaram para senador no domingo pensando nisso.

O PL terá 28 senadores e 121 deputados federais: 34,6% do Senado, 23,6% da Câmara, um quarto do Congresso.

Nesse cenário, uma vitória de Lula no segundo turno seria um amargo prêmio de consolação, sob ameaça permanente de impeachment. Se Flávio Bolsonaro vencer, terá carta branca ao menos até o fim de 2027. A chance de reeleição de Davi Alcolumbre no Senado e de Hugo Motta na Câmara caiu drasticamente.

A retaliação parlamentar ao STF – justíssima, aliás – é questão de semanas.

Lula poderia se antecipar: sinalizar a Alcolumbre que não se oporia ao andamento de um pedido de impeachment de Alexandre de Moraes e, com isso, ganhar a simpatia que lhe falta para a reeleição. Mas, se isso acontecer, aí sim vou acreditar na teoria bolsonarista de que o Lula verdadeiro foi substituído por um clone.

Sérgio Praça é doutor em Ciência Política pela USP. Publicou, entre outros, os livros “Guerra à Corrupção: Lições da Lava Jato” e “Corrupção e Reforma Orçamentária no Brasil”