O Centrão está sentindo cheiro de poder do lado de Flávio Bolsonaro.
A conta mudou para valer no domingo, 4.
O resultado do primeiro turno mostrou uma direita maior no Congresso e, por consequência, um pequeno encolhimento do “Centrão raiz”.
Só que há uma velha regra de Brasília que continua valendo: ninguém governa sozinho.
Por maior que seja a bancada governista, sempre haverá uma tema para aprovar, um projeto para negociar, um orçamento para liberar. E é aí que entra sempre o Centrão — menor, talvez, mas ainda necessário.
Lá no início da pré-campanha do primeiro turno, a federação PP-União e o Republicanos consideravam Lula o grande favorito. Um dos presidentes desses partidos chegou a dizer a esta coluna que Lula seria reeleito agora em outubro “com certeza”. Preferiram, no entanto, esperar para ver.
No caso de PP e União, havia ainda uma conta particular. Pesou a favor da neutralidade o fato de Flávio ter largado a mão de Ciro Nogueira, presidente do PP, quando o senador piauiense foi alvo da Polícia Federal no âmbito das investigações do caso Master.
O PL tentou, tentou, mas não conseguiu levar o Centrão para o seu lado na composição da chapa. Restou ao partido acreditar que dava para seguir sozinho.
Tiraram da cartola o deputado Alfredo Gaspar como candidato a vice e tocaram a vida.
Agora, o jogo virou.
PP e União fizeram, somados, a terceira maior bancada do Congresso. Os dirigentes da federação — Ciro Nogueira, derrotado no Piauí, e Antonio Rueda, eleito deputado federal pelo Rio de Janeiro — anunciaram apoio a Flávio, como esperado.
O Republicanos ainda não bateu o martelo, mas o governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas, correligionário mais ilustre atualmente, tem buscado garantir a aliança com Flávio. Marcos Pereira, presidente da sigla e reeleito deputado pelo estado de Tarcísio, afirmou à coluna que as negociações ainda estão em andamento. A decisão não deve demorar a sair.
No PSD, Gilberto Kassab, especialista em canoas do poder, não vai pular para a de Flávio. Mas a confirmação do apoio de Ronaldo Caiado ao candidato do PL nesta segunda etapa é suficiente para abrir uma porta que Kassab conhece bem: a de espaço num eventual novo governo. O ex-governador de Goiás já aparece como nome possível para um ministério, como o da Segurança Pública, que teria de ser recriado.
O MDB, que abriga lulistas e bolsonaristas, como o PSD, manteve a neutralidade e liberou suas lideranças.
E o Podemos, já cortejado por Flávio no primeiro turno, voltou ao radar do PL: pode dar samba.
A vantagem de Flávio sobre Lula forçou um ajuste das forças em Brasília.
O Centrão pode até ter perdido algum espaço proporcional no Congresso. Mas, por mais forte que seja um eventual governo de Flávio, com o PL dominando Câmara e Senado, ninguém chega ao Palácio do Planalto tão autossuficiente a ponto de dispensar o tradicional pêndulo do poder.

