O ano era 2003. Aos 17 anos, Roqueline Martins Borges Souza perdeu o pai em um acidente e teve que abandonar os estudos. Ela estava cursando o ensino médio. Passados 14 anos, já casada e mãe de três filhas, em 2017 ela descobriu uma oportunidade: poderia voltar para a sala de aula, em uma escola do Sesi.

“Vi ali uma oportunidade de concluir meus estudos. Podia estudar à noite, online e sem pagar nada. Concluí o ensino médio em seis meses e fiz um curso técnico de manutenção e reparação de computadores. Agarrei essa oportunidade e nunca mais parei de estudar”, conta ela.

Assim como Roqueline, 64 milhões de brasileiros com 15 anos ou mais não concluíram a educação básica e o ensino médio no tempo certo, segundo um estudo feito por 16 organizações da sociedade civil, entre elas a Fundação Roberto Marinho, a Unesco e o Unicef. A pesquisa aponta que o Brasil poderia gerar R$ 66 bilhões de renda extra por ano se essa parcela da população tivesse concluído a educação básica. O valor equivale a 0,6% do PIB (Produto Interno Bruto).

O quadro põe o país entre os que têm os menores percentuais de adultos entre 25 e 64 anos com o ensino médio completo: 60%, contra 75% no Chile, 94% no Canadá e 81% na média dos países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), segundo o estudo Education at a Glance 2025.

Reduzir o número de brasileiros que ainda não concluíram os estudos e qualificar essas pessoas para o mercado de trabalho por meio da EJA (Educação de Jovens e Adultos) Profissionalizante é a principal missão do SESI (Serviço Social da Indústria) e do SENAI (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial).

Desde 2016, mais de 200 mil jovens e adultos conquistaram o certificado de conclusão dos estudos em até 13 meses, com aulas online e presenciais. A EJA Profissionalizante é uma iniciativa gratuita do SESI que combina a elevação da escolaridade com a qualificação profissional, em parceria com o SENAI, e está presente em 25 estados brasileiros.

O superintendente de Educação do SESI, Wisley João Pereira, lembra que a educação de jovens e adultos, alinhada com formação técnica e profissional, como a ofertada por meio do EJA Profissionalizante, garante direitos, cidadania e um país mais produtivo.

“Hoje, o Brasil tem mais de 60 milhões de brasileiros sem educação básica completa. Esse número representa o tamanho de países como a França, como a Itália, dentro do nosso país, que não tiveram o seu direito de terminar a sua educação na idade correta por ‘n’ motivos. Seja por gravidez precoce, seja porque precisava ter acesso a um emprego, mesmo informal, para trazer recurso financeiro para dentro de casa, essas pessoas foram, de certa forma, empurradas pelo contorno social brasileiro a não concluir a sua educação básica. Isso interfere profundamente na produtividade brasileira”, diz Wisley Pereira.

Cursos adaptados

No curso, até 80% das atividades são mediadas por tecnologia, em uma sala de aula virtual fácil de usar. Os alunos podem estudar pelo celular ou pelo computador e as atividades têm foco em situações reais, da vida cotidiana. Dessa forma, fica mais fácil conciliar a rotina da escola com o trabalho, a família e outros compromissos.

Os encontros presenciais são voltados para atividades práticas, para o uso de tecnologias e para a troca de experiências, valorizando o que o aluno já sabe. O que se aprende na escola, então, passa a fazer parte do dia a dia das pessoas. Interpretar um boleto ou um contrato, resolver situações que envolvem cálculos e tomar decisões com mais segurança são alguns exemplos. Os benefícios vão além. Com mais conhecimento e mais escolaridade, também surgem novas oportunidades de emprego ou mesmo chances de promoção no emprego atual.

A metodologia reduz o tempo presencial em sala de aula e a necessidade de deslocamento para a escola, proporcionando maior flexibilidade para que o estudante encaixe os estudos na sua rotina. É uma combinação que, ao favorecer o engajamento dos participantes, amplia as possibilidades de acesso, de permanência e de conclusão da educação básica. O diploma, enfim, fica muito mais perto.

A gerente de Operações Educacionais do Senai, Vanessa Sorda Frason, reforça que os cursos têm a função de acelerar a inserção profissional, ao otimizar o tempo das pessoas na busca por concluir a educação básica e conquistar, ainda por cima, uma formação profissional. Ela lembra que isso garante o resgate da autoestima dos trabalhadores, seja pela geração de novas rendas, seja aperfeiçoando os conhecimentos que garantem a permanência no mercado de trabalho.

“Essa pessoa mais qualificada vai ter menos retrabalho, evita desperdícios, faz uso consciente de equipamentos que contribuem para o processo de inovação da indústria. Todos esses fatores levam ao aumento da produtividade, além da questão da cidadania”, diz.

Enquanto o SESI atua na elevação da escolaridade, o SENAI oferece, ao mesmo tempo, a qualificação profissional. Assim, quem cursa o ensino médio pela EJA Profissionalizante também pode se qualificar como eletricista, confeiteiro, mecânico e programador, entre outras. As opções de curso variam de acordo com a disponibilidade e a demanda de mão de obra de cada estado.

Enquanto aumenta a presença de jovens na EJA, fenômeno conhecido como “juvenilização da EJA”, a população do país envelhece e amplia a necessidade de manter adultos e idosos preparados para acompanhar as transformações do mundo do trabalho.

Nesse cenário, uma força de trabalho mais madura e diversificada exigirá, cada vez mais, a atualização de conhecimentos e o desenvolvimento de novas competências para manter e ampliar seu desempenho produtivo. E isso só se faz com educação básica de qualidade e formação profissional continuada.

Com uma rede de 317 escolas e metodologias inovadoras, professores qualificados, material didático próprio, infraestrutura e tecnologias que fazem a diferença na vida dos alunos, o SESI e o SENAI trabalham para ampliar as oportunidades de educação e qualificação profissional para trabalhadores que tiveram sua trajetória escolar interrompida, além de oferecer uma formação voltada não só à inserção, mas também à permanência no mercado de trabalho. É um sopro de esperança para que o Brasil seja mais produtivo e as pessoas sejam cada vez mais felizes.