Na sabatina da TV Globo, nesta quinta-feira, 15, Lula apareceu sem chapéu, ao contrário do que ocorreu na entrevista à emissora no primeiro turno.
Levou para a bancada uma papelada, mas não recorreu a ela.
Revezou a versão “Lulinha, paz e amor”, sorridente, com momentos de tom mais elevado e as já habituais batidas na mesa.
Enquanto Renata Lo Prete fazia perguntas objetivas, contextualizadas e propositivas, o candidato, assim chamado durante toda a entrevista, coçava o bigode ou tomava alguns goles de água.
A maior novidade da sabatina foi a mudança de opinião de Lula sobre a redução da maioridade penal. Renata até repetiu a pergunta, o que levou o petista a reforçar o que dissera: agora, ele se coloca como alguém favorável à redução da maioridade penal de 18 para 16 anos em casos de crimes hediondos.
“A sociedade brasileira inteira é favorável à punição de qualquer crime hediondo”, emendou Lula, ciente de que esse é um tema bastante sensível para a campanha à reeleição.
Ele, no entanto, quis deixar claro que defende, primeiro, a aprovação da PEC da Segurança Pública, que ainda não passou pelo Senado, para somente em seguida discutir essa questão.
“Esta PEC não é para discutir isso.”
Ainda sobre segurança pública, Lula recorreu a um lema também usado pelos adversários do campo da direita ao longo da campanha deste ano e, por duas vezes, falou em “libertar os territórios” do crime organizado.
É claro que o caso Master e as implicações do escândalo no STF tomaram parte significativa dos 40 minutos de sabatina.
Lula foi provocado a comentar, mais uma vez, o encontro com Daniel Vorcaro, intermediado pelo ex-ministro petista Guido Mantega, no fim de 2024, quando o Master já era alvo de procedimentos formais no Banco Central.
“Ele foi me procurar como todos que estão com problema vão me procurar”, justificou o candidato à reeleição.
Segundo Lula, Vorcaro disse a ele que estava sendo “perseguido politicamente”. O presidente teria respondido que ele não seria perseguido, mas investigado.
Lula fez questão de concluir a resposta sobre o episódio afirmando que o banco seria fechado pouco depois.
Renata Lo Prete quis saber se Lula associava a crise no STF ao fato de Flávio Bolsonaro ter ficado à frente dele no primeiro turno.
O candidato disse que “a extrema-direita tenta jogar a Suprema Corte nas minhas costas” e quer cassar Alexandre de Moraes “porque ele prendeu o pai do Flávio”.
“Essa é a questão que está em jogo”, afirmou, sem fazer críticas específicas a Moraes e argumentando que “está todo mundo implicado”. Ele citou Dias Toffoli, André Mendonça e Kassio Nunes Marques.
A entrevistadora tentou ponderar que as situações eram diferentes. Lula, então, optou por dizer que é preciso “apurar tudo e punir quem precisar punir”.
Sobre o pedido de vista de Flávio Dino, indicado por Lula, que, em setembro, adiou uma decisão sobre a investigação de Moraes, Lula disse não ter como “interferir em decisões de ministros”. Também alegou não ter conhecimento jurídico para avaliar a postura de seu ex-ministro da Justiça e Segurança Pública.
Ao defender uma reforma do Judiciário no ano que vem — algo irreversível, segundo ele —, Lula elencou mudanças nos critérios de indicação, o estabelecimento de mandatos para ministros do Supremo e uma avaliação sobre o trabalho de ex-ministros que atuam em escritórios de advocacia com causas na corte.
Lo Prete questionou, ainda, se Lula manteria Andrei Rodrigues no comando da Polícia Federal caso fosse reeleito para o quarto mandato, no próximo dia 25.
O candidato se esquivou de responder, mas elogiou o delegado.
“Está fazendo um extraordinário trabalho”, resumiu Lula, sem dar mais detalhes.
De acordo com o presidente, a explicação que ouviu de Rodrigues para ter ido a uma festa custeada por Vorcaro em Londres, em 2024, “não foi convincente” e, por isso, teria “chamado a atenção” do diretor-geral da PF.
Na economia, Lula discordou de uma avaliação de Gabriel Galípolo, mencionada por Lo Prete, segundo a qual não dá para continuar confiando no crescimento estimulado pelo consumo sem cuidar do corte de gastos. Galípolo chegou ao comando do Banco Central pelas mãos de Lula.
O petista invocou um pensamento antigo: “O jeito de resolver o problema fiscal é fazer a economia ficar crescendo”.
“Toda vez o povo pobre paga [a conta da questão fiscal]. E eu não quero que o povo pobre pague.”
Sem querer se alongar sobre a dívida pública, Lula falou em incentivar a microeconomia, o microcrédito e os pequenos empreendedores.
Lula discordou da avaliação de Lo Prete de que a frente ampla que garantiu a volta do petista ao poder quatro anos atrás “não vingou” e de que o Congresso foi “hostil” a ele. O presidente disse que “aprovou 99%” do que o governo enviou ao Congresso, incluindo a reforma tributária. Disse ainda que, com exceção do PL, “todos os partidos participaram do meu governo”.
Sobre o reajuste do Bolsa Família às vésperas do primeiro turno, como parte do pacote de bondades ainda em execução, Lula disse que não o havia feito antes porque só naquele momento soube que sua equipe não tinha atualizado os valores do benefício com base na inflação. Lo Prete quis se certificar de que essa era mesmo a explicação, e ele repetiu a versão.
No minuto final da sabatina, Lula afirmou “ter certeza de que o Brasil está no rumo certo”, celebrou a aprovação definitiva do fim da escala 6×1 e anunciou que, se reeleito, vai trabalhar para garantir transporte gratuito em todo o país aos fins de semana, como “política de Estado”, aproveitando, segundo ele, o dia de folga a mais para os trabalhadores.

