Princípios são inegociáveis. Retidão, caráter e compromisso com as boas normas do jornalismo também, mesmo nestes tempos sombrios. Mensagens que vieram a público nos últimos dias revelaram episódios nos quais o ex-banqueiro Daniel Vorcaro pressiona o dono do PlatôBR com o propósito de interferir em conteúdos publicados no site. Garanto que, nos assuntos tratados e editados por mim, isso não aconteceu – nem haveria espaço para acontecer.

A maior prova disso é que, desde o lançamento do Platô até hoje, não há, entre os conteúdos publicados pelos jornalistas da minha equipe, uma nota sequer afagando o ex-banqueiro ou seus asseclas nem atacando seus inimigos. A relação de amizade do dono do Platô com Vorcaro é sabida, mas ele sempre negou peremptoriamente, tantas vezes quantas foi perguntado por mim e por outros colegas, que o ex-banqueiro do Master tivesse participação no negócio – e aqui nem falo de independência editorial porque, como em outros projetos de que participei, a liberdade para tomar decisões de acordo com meus critérios jornalísticos foi condição para o meu aceite. Em todos os conteúdos pelos quais fui responsável, asseguro que não houve intromissão. As relações do dono do site não condicionaram matérias por nós publicadas. Aqui no nosso quadrado, desde o dia zero, os critérios editoriais do time que eu lidero são os da redação. Não fosse assim, não estaríamos aqui.

As mensagens de WhatsApp que circularam nos últimos dias também surpreenderam a nós, jornalistas que seguimos aqui e, diuturnamente, trabalhamos para fazer o melhor trabalho possível, técnico, equilibrado, sem militância, sem concessões. Digo que as mensagens nos surpreenderam porque pedidos como os que lá aparecem, para poupar ou atacar pessoas, para submeter pautas ou para interferir em textos, nunca – repito, nunca – foram feitos a mim. Nem pelo proprietário do Platô nem por qualquer outra pessoa. E, se tivessem ocorrido, teriam sido rechaçados.

Quem me conhece mais de perto, e conhece a minha história e a minha conduta profissional, sabe que eu jamais compactuaria com esse tipo de coisa. Seria sofrer a intervenção e, ato contínuo, sair pela porta mais próxima. Talvez por compreender quem estava do lado de cá e pela consciência de que intervenções indevidas seriam rejeitadas de pronto, comigo não ocorreram nem sequer tentativas de ingerência como as reveladas pelas mensagens – as quais, aliás, eu desconhecia até então. Não ocorreram comigo e não ocorreram com os jornalistas que vieram a meu convite e que trabalharam ou trabalham sob a minha coordenação – as mensagens, vale dizer, se referem a um profissional que para cá veio não por mim, mas a convite do próprio dono do Platô e que aqui publicou, por 16 meses, uma coluna autônoma, cujas pautas e decisões cabiam exclusivamente a ele.

A mim, nunca houve pedido para enviar perguntas de uma entrevista antecipadamente e nunca foi dada qualquer orientação para “não falar” de fulano ou beltrano. Nunca me foi solicitado para alterar um conteúdo por interesse do dono do site ou de pessoas próximas a ele. Com o perdão do clichê: assombração sabe para quem aparece.

Se sigo aqui é porque entendo que temos conseguido – eu e o meu time – fazer um trabalho que considero adequado e honesto. Do contrário, já teria seguido para outros desafios, que, felizmente, não faltam. Não estou aqui em razão de salário. À diferença de outras situações que estão expostas no noticiário, com ofertas astronômicas, o que recebo, mês a mês, é nada menos do que o valor de mercado equivalente ao que eu recebia em meus trabalhos anteriores. Ou seja: não há, nem eu permitiria a mim mesmo que houvesse, qualquer concessão em troca de conforto financeiro, de benesses ou de projetos personalistas. Este é mais um trabalho que procuro exercer com afinco, dedicação e retidão em quase 30 anos no jornalismo, com passagens exitosas pelos principais veículos do país. Isso vale também para as pessoas que trabalharam ou trabalham diretamente comigo, profissionais íntegros, competentes e de reputação conhecida no mercado.

Se em algum momento o ex-banqueiro, preso sob a acusação de comandar a maior fraude financeira da história do país, pediu ao dono do Platô para que não houvesse menções a parceiros diletos dele como Antonio Rueda, presidente do União Brasil, e Ciro Nogueira, presidente do Progressistas, esse pedido não apenas não foi feito a mim como não se reflete nas dezenas de notas e reportagens que podem ser pesquisadas por qualquer leitor entre os conteúdos publicados pelo site: até esta semana, foram 72 textos mencionando Rueda e 192 com referências a Ciro Nogueira – a maioria deles, como é de se esperar, com abordagens nada agradáveis a ambos.

Por sinal, aqui cabe outra lembrança. Em fevereiro de 2025, o PlatôBR montou um estúdio no Congresso Nacional para acompanhar de perto o dia da eleição das mesas diretoras da Câmara e do Senado. Fizemos entrevistas com personagens de diferentes matizes partidários e ideológicos. Rueda passou por lá. E, em uma das poucas oportunidades em que pôde ser confrontado sobre o assunto no tête-à-tête, foi perguntado por mim, sem meias palavras, sobre as suspeitas que pairavam – e que ainda pairam – sobre ele nas investigações que envolvem o chamado “Rei do Lixo”. Como esse episódio, há vários outros, incluindo reportagens recém-publicadas, que deixam patente que nossa redação trabalha com independência e correção.

Por mais que eu, com minha trajetória extensa na grande imprensa, entenda e reconheça que, sim, a palavra final sobre um conteúdo a ser publicado cabe ao dono do veículo, no caso concreto, ao longo destes dois anos do Platô, entendi ser necessário multiplicar o cuidado com tudo. Por se tratar de um veículo novo, em busca de seu lugar no mercado, o desafio se mostra ainda maior: é preciso erguer uma marca, construir confiança (tarefa complexa que, creio, temos conseguido cumprir com êxito) e, o mais importante, garantir a absoluta preservação da reputação do time. Meu nome não está em mensagens que exijam explicações. Os nomes dos jornalistas do meu time também não. Mesmo assim, achei por bem, em respeito aos nossos leitores, deixar tudo muito claro: nossa redação não se dobra, não negocia seus princípios e não se submete a interesses escusos. Até porque, seja aqui ou onde quer que possamos estar um dia, a credibilidade é o maior entre todos os ativos que nós, jornalistas, podemos ter. E devemos cuidar de preservá-la sempre, custe o que custar.