No debate da Globo, na noite desta sexta-feira, 23, Flávio Bolsonaro e Lula até se esforçaram um pouco mais para discutir temas que interessam aos eleitores, pincelar propostas e apresentar uma postura mais condizente com a de candidatos à Presidência da República.

Mas, no fim das contas, foram muitas as acusações de mentira contra o adversário. E o último dos quatro blocos do programa com pouco mais de duas horas de duração, dedicado ao embate com temas livres, lembrou bastante o debate da Band, cinco dias atrás: somente trocas de denúncias e imputações de malfeitos.

Flávio, candidato da direita, estava à esquerda do estúdio. Colocou a gravata para o segundo e último debate da corrida presidencial. Começou deixando claro que tinha frases e discursos bem treinadinhos. Usava o tempo a que tinha direito com mais precisão do que Lula. E foi, aos poucos, aproveitando algumas levantadas de bola.

Lula, candidato da esquerda, estava à direita do estúdio. Tirou a gravata para o segundo e último debate da corrida presidencial. Começou recorrendo várias vezes à papelada que levou ao púlpito, gastando segundos preciosos do tempo a que tinha direito com respiração e pausas longas. Não raras vezes, mostrou-se atrapalhado com as regras estipuladas pela emissora.

A Globo não incluiu corrupção entre os dez temas listados, dos quais seis seriam escolhidos por Flávio e Lula para serem debatidos ao longo de dois blocos. Acusações de corrupção, porém, acabaram surgindo aos montes, sobretudo na reta final do programa.

Lula retomou o episódio do Dark Horse e o dinheiro de Daniel Vorcaro para o filme. E explorou, ainda, o caso envolvendo o jogador de futebol Richarlison, que acusa o candidato do PL e o advogado Willer Tomaz de terem articulado uma manobra jurídica para tomar a posse de uma mansão de R$ 10 milhões em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro.

Flávio rebateu insistindo que o filme sobre o pai “não recebeu dinheiro público” e que o financiamento do ex-banqueiro “não teve contrapartida”. Sobre a mansão em Angra, o senador disse que Richarlison “está tomando volta do empresário”, ou seja, sendo enganado pelo empresário, e que não tem “absolutamente nada a ver com isso”.

Ainda sobre o Banco Master, Lula disse, por mais de uma vez, que Flávio e a turma dele “criaram um banqueiro e eu fiz dele um prisioneiro”. Flávio foi chamado de “filhote de Vorcaro”. O candidato do PL reagiu dizendo que um assessor do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, “articulou para que dinheiro de fundos de pensão fosse investido no Master”. E lembrou da garrafa de uísque de meio milhão de reais que teria sido dada de presente por Vorcaro a Lula. “Qual o gostinho desse uísque, Lula? Sabor vergonha”, provocou Flávio.

No duelo de enlameados, Lula citou também a festa em um barco no Lago Paranoá, em Brasília, que donos da Precisa Medicamentos teriam promovido para o senador durante a pandemia, numa tentativa de se aproximar do governo Bolsonaro e negociar a venda da vacina Covaxin. “Ele estava no barco no dia em que morreram 1.100 pessoas”, disse Lula, que, em outros momentos, voltou a rememorar o período da pandemia, sempre com críticas à atuação do pai de Flávio.

O candidato do PL tentou acuar Lula com citações a Lulinha, filho do presidente e alvo de atenção sempre que se fala do escândalo do INSS. Lula, por sua vez, levou para o debate a novela dos sigilos de ambos, renovando o desafio, em tom mais elevado, para que Flávio abra suas contas. “Preciso provar quem é ladrão para este país”, afirmou o candidato à reeleição. Flávio disse que Lula não tem nada em seu nome, “perde a linha e se descontrola” e não abre o sigilo do cartão corporativo da Presidência.

O STF, assim como no debate da Band, não entrou na pauta. Nenhum dos dois mencionou, por exemplo, o impeachment de ministros do Supremo.

Também repetindo o que o eleitor já havia notado no debate anterior, Flávio focou na perda do poder de compra das famílias brasileiras, prometendo “prosperidade”. E Lula falou do legado dos governos do PT e de sua trajetória política para intensificar as acusações de que o adversário abusava do desconhecimento do país, de mentiras e cinismos.

Lula, com a já costumeira voz rouca, chegou a explorar a diferença de idade entre ele e Flávio: o presidente tem 80 anos, e o senador, 45. “A bobagem que esse jovem fala quando vai debater…”. Flávio logo percebeu o tom pejorativo e explorou a fala do adversário: “Não sei qual o preconceito que o senhor tem com quem é jovem”, disse, emendando uma autoapresentação e acrescentando que “o Brasil escolheu a mudança”. Em outras ocasiões, foi a vez de Flávio entrar numa seara arriscada. “Você está com algum problema, porque você não está ouvindo” e “Eu confesso que eu estou com um pouquinho de dificuldade de dizer o que ele está falando” foram frases usadas pelo senador.

Ainda durante o debate, Flávio foi acusado de capacitismo ao se referir aos “nove dedos” de Lula. “Não adianta reajustar o salário mínimo acima da inflação, se você dá com uma mão e tira com os nove dedos”, disse. Lula pediu direito de resposta, prontamente concedido. “Ele disse uma grande asneira e eu não vou levar para casa. Ele me chamou de ‘nove dedos’. Não vou permitir que um miliciano me chame de ‘nove dedos’. Ele nunca trabalhou na vida”, afirmou Lula. Flávio se viu obrigado a pedir desculpas.

Abusando de chavões e, ao mesmo tempo, se comunicando de maneira mais direta com o eleitor, Flávio começou o debate mais seguro do que terminou. O candidato do PL foi ficando na defensiva à medida que Lula ia soltando questões pessoais e embaraçosas para o adversário. A campanha do PT levou para a plateia a mãe de Ana Clara Gomes Machado, uma criança de 5 anos que foi baleada em fevereiro de 2021 na comunidade Monan Pequeno, em Niterói. O cabo da Polícia Militar Bruno Dias Delarolli foi preso em flagrante na época e denunciado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro por homicídio doloso. Em 2024, Flávio Bolsonaro, que é advogado, passou a atuar gratuitamente na equipe de defesa do PM. Flávio afirmou, no debate, ter “confiança de que não foi esse policial” o autor do disparo e falou em “tragédia em uma troca de tiros numa comunidade conflagrada”. “Todo mundo sabe da sua relação com muita coisa ruim aqui no Rio de Janeiro”, insistiu Lula no assunto.

Nos embates que deveriam ser focados em regiões do país ou temas específicos, Flávio e Lula trocaram críticas sobre obras paradas, investimentos no agronegócio, independência do Banco Central e modelos econômicos.

Flávio, desta vez, fez questão de explorar melhor o resultado do primeiro turno favorável à direita, citando governadores aliados já eleitos e prevendo uma gestão em parceria em vários estados, caso seja eleito presidente.

Lula conseguiu expor a contradição de Flávio, que não votou a favor do aumento do auxílio-maternidade no Congresso, mas agora se diz favorável ao reajuste. Também recordou que o filho do ex-presidente já chamou o Bolsa Família de “Bolsa Farelo”.

Flávio aproveitou uma oportunidade que o próprio Lula o deu de presente quando o presidente perguntou se o adversário faria um tesouraço na saúde. “Não. O tesouraço vai ser na corrupção, nos impostos”, respondeu. Em um aceno ao eleitor independente, Flávio, pela primeira vez, disse que Lula “tinha ideias boas lá atrás”, mas que hoje, segundo ele, “não funcionam mais”.

As bets também foram debatidas. Lula lembrou que acabou com as apostas esportivas virtuais porque, no entender ele, a situação “estava virando um inferno na vida das pessoas”. Flávio acusou Lula de ser “o pai do tigrinho”, referindo-se a um dos tipos de jogos. Lula retrucou dizendo que Flávio era “o irmão do tigrinho”, porque o pai dessa história toda havia sido, na verdade, Jair Bolsonaro.

Os projetos de checagem de informações tiveram muito trabalho.

Nas considerações finais, Flávio e Lula se lembraram de pedir votos. A eleição será decidida neste domingo, 25. Flávio apostou em uma forma mais sóbria, “menos Pablo Marçal”, embora não tenha conseguido, a todo instante, se livrar do deboche e do sarcasmo. Lula confiou na experiência, manteve o tom de alerta sobre Flávio, e acabou se embananando diversas vezes.

O eleitor convicto de cada um não se surpreendeu com nada do que viu e ouviu. Conhece o produto que, a esta altura, escolheu sem chance de mudar. Já os indecisos, que poderão, mais uma vez, definir o rumo do país, talvez tenham chegado a alguma conclusão nova. Isso se conseguiram ficar acordados até tarde.