Luiz Inácio Lula da Silva, de 80 anos, foi eleito presidente do Brasil pela quarta vez e tomará posse novamente em 5 de janeiro de 2027.

Com 99,99% das urnas apuradas, Lula teve 51,78% dos votos válidos, contra 48,22% de Flávio Bolsonaro. Uma diferença de mais de 4,4 milhões de votos.

A virada de Lula, inédita numa corrida presidencial, se concretizou, muito em razão da redução da abstenção do primeiro para o segundo turno.

“Nós conseguimos convencer de que o voto era muito importante para assegurar a democracia no país”, disse Lula, no pronunciamento da vitória.

Flávio era um candidato improvável. Tinha um enorme passivo. Ficou conhecido, no início do mandato como senador, pelas investigações sobre rachadinha quando era deputado estadual pelo Rio de Janeiro. Quando seu nome foi anunciado por Jair Bolsonaro, por meio de uma carta, no fim de 2025, nem a direita levou a sério. Muitos em Brasília acharam, aliás, que seria um “balão de ensaio” para emplacar, posteriormente, Tarcísio de Freitas. O governador de São Paulo era, inclusive, a aposta do próprio Rogério Marinho, que viria a coordenar a campanha de Flávio.

A escolha por Flávio foi defendida pelo entorno dele como uma forma de não deixar o poder crescer fora do clã Bolsonaro. Mas nem a família sabia se realmente daria certo. Flávio sempre foi considerado “o mais habilidoso” dos filhos de Jair. Transitava bem pelo Centrão no Congresso, tinha “a malícia da política”, mantinha contatos (e negócios) com advogados renomados da capital federal e, ao mesmo tempo, sabia jogar o jogo da narrativa que agradava aos mais radicais dos bolsonaristas. Seu telhado de vidro, porém, era enorme. E ele sabia disso. Todo mundo sabia.

Até pouco antes do início oficial da campanha, lideranças do Centrão acreditavam, sem titubear, na reeleição de Lula. Por isso, relutaram tanto em caminhar com o PL, o que só ocorreria no segundo turno, quando Flávio passou a ser considerado favorito. Ainda que tenha subestimado a transferência de votos dentro do bolsonarismo e da direita, o PT não escondia de ninguém que queria enfrentar o filho 01 do ex-presidente, considerado o “adversário ideal” para garantir a Lula um quarto e último mandato.

Quando a campanha começou no rádio, na televisão, nas redes e nas ruas, os caminhos dos dois principais candidatos ficaram bem claros, enquanto o eleitorado dava sinais de que não daria muita bola para os desdobramentos de escândalos como os do Banco Master e do INSS. Lula insistiria no próprio legado, no passado e na memória dos seus eleitores. Flávio exploraria o lugar de oposição, o sentimento de mudança e a esperança em “dias melhores”.

Fora da polarização, mais uma vez, não haveria fôlego. Ficaram pelo caminho em 2026 dois ex-governadores, Ronaldo Caiado (Goiás) e Romeu Zema (Minas Gerais); um outsider de verdade, o escritor e psiquiatra Augusto Cury; e um fenômeno novo, Renan Santos. Sem alternativas, o voto progressista se concentrou em Lula. Flávio, por sua vez, tentou reunir em torno de si o voto da centro-direita para lá.

O resultado do primeiro turno, em 4 de outubro, encheu de entusiasmo Flávio e seus aliados. Lula terminou atrás. O PL, impulsionado pela crise no STF, fez um strike: garantiu maioria em todos os espaços de poder, das Assembleias Legislativas aos governos estaduais, passando pela Câmara e pelo Senado. A curva à direita no país como um todo levou a campanha presidencial da direita a se convencer de que o mote do segundo turno seria o desejo de mudança, independentemente de qualquer outra coisa.

O PT sentiu o baque, mas não jogou a toalha. Acreditou na virada até o fim. Logo na largada das três semanas que separam o primeiro do segundo turno, Lula mexeu na coordenação da campanha e avançou com o pacote de bondades, explorando a máquina como pôde.

A militância, assustada com a chance de “volta do bolsonarismo” ao poder, despertou e saiu às ruas de um jeito que ainda não havia ocorrido. “Quero agradecer a generosidade da juventude brasileira que foi para a rua para defender a democracia”, disse Lula, em seu primeiro discurso após a vitória.

O deputado André Janones (Rede-MG), que criou o “Exército do Lula” e foi chamado pelo presidente, já reeleito, de “general”, merece um destaque à parte nesta virada. O canal de Janones no WhatsApp, fora da campanha oficial do PT, alcançou mais de 10 milhões de inscritos. A mobilização a partir daí foi um estrondo.

Flávio teve de administrar o clima de “já ganhou” no segundo turno, além da dispersão da campanha. Muitos aliados, já eleitos, tiraram o pé. A estratégia de “jogar parado” não deu certo. Quando, por exemplo, o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) pôs nas ruas de várias cidades o “Bloquinho do 22”, em favor de Flávio, a esquerda já tinha estendido antes o tapete vermelho.

Nos dois únicos debates entre Flávio e Lula na campanha, na Band e na Globo, a imagem de um Flávio “malandro” pesou muito.

Depois que a adrenalina baixar do lado do PT, começará a temporada de especulações sobre prováveis ministros e ministras da nova Esplanada. Lula terá de ficar de olho na reação no Congresso, onde, com maioria de direita, será palco de votações ainda nesta legislatura e antes das definições das mesas diretoras, em fevereiro de 2027.