Em um ambiente dominado pelas redes sociais, onde o algoritmo privilegia posições extremadas, partidos de centro começaram um movimento para tentar construir uma alternativa para 2026 frente à polarização que marcou as últimas eleições. As conversas ainda estão longe de serem decisivas, mas essas legendas ensaiam a possibilidade de fusão ou formação de uma federação, o que daria a eles mais musculatura, inclusive para o lançamento de candidaturas próprias ao Planalto. Nesse movimento, o União Brasil conversa com o PP e o PSDB tenta atrair o MDB, o Podemos e o Solidariedade para um projeto político conjunto. Ainda faltam, porém, nomes capazes de mobilizar eleitores nacionalmente.
Nos planos dos tucanos, a intenção visa à sobrevivência do partido, que nos anos 1990 e 2000 polarizava com o PT, mas hoje tem uma bancada pequena, com apenas 22 deputados federais. Na visão do deputado Aécio Neves (PSDB-MG), que faz parte da Executiva da legenda, a formação de uma federação precisa ser costurada em torno de uma candidatura para 2026, e o nome sonhado é o do governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite. O PSDB já foi avisado que o Cidadania vai deixar a federação em abril, quando termina o prazo legal para as duas legendas seguirem juntas.
Critério é não estar no governo Lula
Aécio quer juntar forças no campo político de centro-direita e tem levado em conta um só critério: entram apenas legendas que não estejam com cargos no governo Lula. É nesse quesito que a relação com o MDB esbarra. O partido tem três ministros na Esplanada. Há, ainda, a possibilidade de ganhar mais um cargo, caso se confirme a ida do líder da bancada na Câmara, Isnaldo Bulhões (AL), para o governo. Unir-se ao PSDB significaria ter que renunciar a esses cargos, algo que no momento parece fora de cogitação. Hoje, os emedebistas do governo são Simone Tebet (Planejamento), Jader Filho (Cidades) e Renan Filho (Transportes).
A tentativa de construir a federação representaria o resgate de uma relação histórica - o PSDB surgiu de uma dissidência do MDB na época da Constituinte em 1988. Na semana passada, Aécio se reuniu em São Paulo com a cúpula emedebista. Estavam presentes o ex-presidente Michel Temer e o deputado Baleia Rossi, presidente nacional da legenda. Eles ficaram de voltar a se falar depois do Carnaval.
Os tucanos também buscaram o Podemos e as conversas com a presidente nacional do partido, Renata Abreu, também devem ser retomadas nas próximas semanas. A legenda tem nove deputados e precisa participar de uma federação para sobreviver à cláusula de desempenho, que determina um percentual mínimo de votos como condição para o funcionamento de um partido.
Tentativa fracassada com Kassab
A busca do PSDB por uma federação mais robusta ocorre depois da tentativa frustrada de se unir ao PSD, legenda comandada por Gilberto Kassab, que obteve o maior número de prefeituras nas últimas eleições municipais e já havia conseguido um resultado importante em 2022, fazendo a maior bancada no Senado, com 15 senadores, e na Câmara, com 44 deputados.
A conversa não avançou e, segundo interlocutores do PSDB, as tratativas deixaram marcas na relação entre as lideranças dos dois partidos. Isso porque Kassab, em vez de aceitar a fusão ou a formação de uma federação, teria aventado a possibilidade de incorporação dos tucanos, possibilidade considerada humilhante para a maioria dos integrantes do PSDB.
O clima já não estava bom depois de o PSD ter atraído uma revoada de prefeitos do interior e da Grande São Paulo para a legenda após as eleições do ano passado. Nesta semana, outro fato político azedou ainda mais a relação: o PSD confirmou a chegada da governadora de Pernambuco, Raquel Lyra, até então tucana. A confirmação se deu antes mesmo de ela comunicar oficialmente a troca ao PSDB.
PP está diante de uma bifurcação
Na onda das possíveis aglutinações, o União Brasil, partido do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (AP), e o PP, partido do ex-presidente da Câmara Arthur Lira (AL), devem retomar as conversas.
A ideia começou a ser gestada no ano passada por Lira. Como ele é cotado para ser contemplado na reforma ministerial que Lula pretende fazer, pode optar por dois caminhos: construir sua candidatura ao Senado pelo campo da direita, investindo na federação junto com o ex-ministro Ciro Nogueira (PP-PI), ou pelo campo da esquerda, aliando-se a Lula, como fez Rodrigo Pacheco (PSD-MG) ao deixar a Presidência do Senado.