A oposição na Câmara pretende investir em um novo tema para desgastar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e, ao mesmo tempo, alavancar críticas a ministros do STF. A ideia é pressionar para que uma proposta que acaba com os sigilos sobre informações do governo e do Judiciário seja pautada pelo presidente da casa, Hugo Motta (Republicanos-PB).

De acordo com o líder da oposição, deputado Cabo Gilberto Silva (PL-PB), a estratégia será definida em uma reunião com os demais representantes de siglas oposicionistas a ser realizada nos próximos dias. Os deputados começaram a mapear opções e avaliam se será mais eficiente desengavetar projetos já existentes que contestam a imposição de sigilos ou elaborar um texto totalmente novo. “Nossa intenção é pressionar politicamente, porque se trata de uma imoralidade”, disse o líder ao PlatôBR.

A proposta tem potencial para confrontar Lula com uma promessa de campanha não cumprida. Em 2022, o petista atacou seu então adversário, Jair Bolsonaro, prometendo um “revogaço” nos sigilos que haviam sido impostos pelo então presidente e que incidiam, por exemplo, sobre visitas recebidas por Michelle Bolsonaro, processos contra o então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, registros de visitas ao Palácio do Planalto, cartões de vacina e compra de cloroquina pelo Exército. 

Entre os atos assinados no dia da posse, Lula deu um prazo de 30 dias para que a CGU (Controladoria-Geral da União) reavaliasse todos os sigilos do ex-presidente. Tempos depois, porém, Lula também impôs segredo sobre informações a respeito da agenda da primeira-dama, Janja da Silva, comunicações diplomáticas e gastos com cartões corporativos, entre outros assuntos.

Material de campanha
Se Hugo Motta (Republicanos-PB) não der andamento célere ao projeto, a oposição pretende levar o assunto para debates em comissões, entrevistas e discursos no plenário e outros canais de divulgação. A ideia é produzir material para ser usado nas campanha. O próprio Motta foi beneficiado recentemente pela imposição de sigilo sobre custos de viagens que fez em avião da FAB (Força Aérea Brasileira).

Para o cientista político Gabriel Jubran, o assunto tem forte apelo eleitoral, embora as chances de avanço na Câmara sejam mínimas. Ele aposta que a discussão invariavelmente estará na pauta das eleições deste ano, principalmente se a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) se consolidar na polarização com Lula.

“No Congresso eu acho muito difícil avançar neste ano porque o tempo é muito curto e deve ser usado para outros grandes projetos, mas não tenho a menor dúvida de que isso vai ser tema de eleição, dos debates, principalmente com a cristalização no nome do Flávio como o candidato da direita, consolidando o uma nova edição do ‘Fla-Flu’ que ocorreu entre Bolsonaro em Lula em 2022”, avalia Jubran. Para ele, em algum momento Flávio deve dizer que Lula criticava seu pai por decretar sigilo e, depois, usou o mesmo expediente para proteger Janja.