Como um bom carioca, Eduardo Paes (PSD) cresceu na política justamente por ostentar a fama de “bonachão” e “espirituoso”, dois traços marcantes de quem nasce e vive na capital fluminense. No caso do prefeito do Rio, o perfil rendeu um feito: o bom trânsito entre os extremos ideológicos. Só que a fórmula perdeu o efeito para sua candidatura a governador neste ano.
Ao dar palanque para Lula na campanha pela reeleição ao Planalto, Paes perdeu o apoio da direita, que lançou o bolsonarista Douglas Ruas (PL) para governador. Deputado estadual de primeiro mandato, Ruas foi o segundo mais votado para a Assembleia Legislativa nas últimas eleições. Embora não desfrute da mesma popularidade que Paes, Ruas tem bom trânsito com os prefeitos fluminenses, pois ocupa a Secretaria das Cidades no governo Cláudio Castro (PL).
Ele é filho do Capitão Nelson (PL), prefeito de São Gonçalo, segundo maior município fluminense. Para vice em sua chapa, convidou Rogerio Lisboa (PP), ex-prefeito de Nova Iguaçu. Em uma das vagas para o Senado, Ruas terá Márcio Canella (União Brasil), que comanda o executivo de Belford Roxo e tem como bandeira o combate ao narcotráfico em um dos municípios mais violentos da baixada fluminense.
Para estrategistas do PL, a aliança tem potencial para tornar a candidatura de Ruas competitiva, mesmo porque o Rio de Janeiro tem a tradição de eleger governadores mais alinhados com o campo conservador. Do ponto de vista do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), a entrada do correligionário na corrida pelo Palácio Guanabara é a garantia de um palanque em seu estado, terceiro maior colégio eleitoral do país.
No contragolpe às alianças do adversário, Paes chamou para vice em sua chapa a bolsonarista Jane Reis (MDB), irmã de Washington Reis, presidente estadual do MDB e ex-prefeito de Duque de Caxias. Mesmo líder nas pesquisas, o prefeito perdeu o conforto que sua candidatura aparentava até poucos meses atrás.
Apesar da divisão, as relações do PL com o prefeito são boas. Em 2020, quando retornou ao comando do Executivo carioca, Paes escolheu Nilton Caldeira (PL) como vice na chapa que tirou o bispo Marcelo Crivella (Republicanos) da prefeitura. Quatro anos depois, ele atraiu o ex-adversário Marcelo Freixo (PT) e foi reeleito com o apoio de parte da esquerda, contra Alexandre Ramagem (PL), ex-diretor da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) durante o governo Bolsonaro, agora condenado a 16 anos de prisão por participação na tentativa de golpe de Estado.
