Há um erro em comparar o episódio em que Aécio Neves fala a Joesley Batista que poderia matar seu primo, caso ele pensasse em uma delação, às revelações da denúncia contra Daniel Vorcaro, em que ele sugere a seu sicário violências como “moer” uma empregada ou “quebrar todos os dentes” do jornalista Lauro Jardim. Até para o Ministério Público, a fala de Aécio, em 2017, era jocosa. As conversas do banqueiro com Luiz Phillipi Mourão, não.

A conversa de Aécio com Joesley aconteceu 24 de março de 2017, em um hotel em São Paulo. A gravação foi autorizada pela Justiça. Os dois tratam de uma remessa de R$ 2 milhões para o então senador tucano. Aécio diz ao empresário que o dinheiro deve ser entregue a seu primo Frederico Pacheco: “Tem que ser um que a gente mata ele antes de fazer delação.” E continua: “Pode ser um primo meu… o Fred. Vamos combinar o Fred com um cara seu.”

A conversa foi revelada no âmbito da operação Patmos, da Polícia Federal, que investigou pagamento de propina por parte dos executivos da J&F e contou com suas delações. Na ocasião, Frederico Pacheco passou um mês na prisão. Ele foi absolvido em 2023, assim como Aécio. Segundo o entendimento da Justiça, não houve prova suficiente de que o dinheiro seria propina. O juiz federal Ali Mazloum, de São Paulo, afirmou que estava provada “a inexistência do crime de corrupção passiva narrado pela PGR”.

As frases ameaçadoras de Vorcaro têm outro contexto. Foram feitas a um homem que, segundo a PF, era responsável por resolver problemas do banqueiro de modo ilegal e por silenciar os críticos. Infelizmente, Mourão não poderá responder sobre essas supostas ordens do banqueiro. Daniel Vorcaro chega a dizer, em mensagem de WhastApp, que Lauro Jardim deveria ser atacado em um falso assalto. Os supostos pedidos para que o jornalista seja silenciado foram feitos mais de uma vez.

Segundo a PF, Vorcaro mantinha um “núcleo de intimidação e obstrução de justiça, responsável pelo monitoramento ilegal de adversários, jornalistas e autoridades” e que, com um grupo intitulado “A Turma”, o banqueiro mantinha estrutura de vigilância e coerção privada.

Diz a decisão de André Mendonça, do STF, que autorizou a prisão do banqueiro: “A dinâmica violenta revelada pelas conversas entre Vorcaro, responsável por emitir as ordens, e Mourão, como longa manus da prática violenta, atinge até mesmo jornalistas que publiquem notícias contra Daniel Vorcaro.”