Com uma diferença de cerca de 250 mil votos, o advogado milionário Abelardo de la Espriella, conhecido com ‘El Tigre’, venceu a eleição presidencial na Colômbia sobre o candidato da esquerda, o senador Ivan Cepeda, que foi apoiado pelo atual presidente, Gustavo Petro. Com isso, a Colômbia será um dos sete países do total de 12 nações da América Latina a ser governado pela direita, caso se confirme a eleição de Keiko Fujimori, no Peru, onde a apuração ainda está em curso, com ligeira vantagem da filha do ex-ditador Alberto Fujimori, que morreu em 2024.
Como o cenário que vem sendo desenhado no Peru, a baixíssima diferença de votos registrada na Colômbia demonstra o alto grau de polarização na política sul-americana. Além disso, um traço importante do recente comportamento do eleitor da região está presente nas eleições colombianas. É o que vem sendo chamado de “maldição do incumbente” por cientistas políticos que acompanham os movimentos da América Latina. Ou seja, não é mais tão fácil a reeleição para quem está no poder.
Esse movimento vem sendo acompanhado com lupa pelo cientista político Guilherme Casarões, professor da Florida International University, nos Estados Unidos. Ele observa que as populações sul-americanas têm se mostrado cada vez menos dispostas a dar um voto de confiança para um segundo mandato de um determinado grupo político. “Se a gente olha para as eleições em grande parte da América Latina, sobretudo na América do Sul, o que se percebe é uma alternância muito grande de poder entre esquerda e direita nos últimos ciclos eleitorais com eleições terminando muito próximas, quase empatadas”, disse Casarões em conversa com o PlatôBR.
“Nesse caso, se Lula for reeleito no Brasil, será uma exceção, não a regra”, apontou. A divisão resistente do eleitorado, com o desaparecimento dos setores moderados, também provoca dificuldades ao longo do mandato. “A regra tem sido na América do Sul que o presidente, seja ele de esquerda ou de direita, cumpra seu mandato, passe por dificuldades sérias de aprovação ao longo do mandato na tentativa de criar políticas que unifiquem o país e depois ele é substituído na próxima eleição”.
Baixo crescimento
Para o cientista político Rafael Henrique Dias Manzi, doutor pela UnB (Universidade de Brasília) e professor da Unialfa (Centro Universitário Alves Faria), em Goiânia, o que mais explica essa “maldição” é a pouca perspectiva de crescimento econômico generalizada entre os países da América Latina, que tem por consequência uma baixa fidelização do eleitorado.
“A América Latina, do ponto de vista econômico, não consegue se recuperar e não apresenta uma perspectiva de crescimento forte, de longa duração. Com isso, as taxas de popularidade dos incumbentes são baixas. Há sim um retorno da direita, mas com bases muito frágeis”, apontou Manzi. “No Brasil, o que se vê é que a esquerda se mantém muito em função de fragilidade da direita, com falta de candidatos realmente competitivos. Não é por um mérito da esquerda, mas pelo fato de a direita estar menos organizada do que a esquerda”, acrescentou.