O presidente nacional do PSDB, deputado federal Aécio Neves, afirmou ao PlatôBR que sua candidatura ao Senado por Minas Gerais é parte de um “projeto para o Brasil em 2030” e integra a estratégia de reconstrução do partido. A legenda encolheu drasticamente nos últimos anos, sobretudo após a derrota do próprio Aécio para Dilma Rousseff (PT) nas eleições presidenciais de 2014.

Em sua primeira entrevista após oficializar a candidatura, o tucano evitou declarar abertamente a intenção de se candidatar ao Palácio do Planalto daqui a quatro anos, mas não descartou a possibilidade. Indagado sobre o assunto, ele recorreu a uma célebre frase do avô, Tancredo Neves: “Política, sobretudo a Presidência, é destino. É muito mais do que um projeto”.

Aécio diz que, antes de 2030, sua prioridade é reorganizar o PSDB. A expectativa dele é que a sigla eleja governadores nas eleições do mês que vem e alcance uma bancada de cerca de 30 parlamentares no Congresso. “Hoje estou, digamos, juntando os cacos do PSDB”, disse. 

O deputado, que já foi senador e governador de Minas, lamentou a saída de quadros importantes do partido, entre eles o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, que foi para o PSD de Gilberto Kassab. “Eu lamentei muito ele ter saído. Acho que foi uma decisão, com respeito, equivocada”, disse em entrevista ao programa Política em Minutos, uma parceria do PlatôBR com a Léo Dias TV (assista à íntegra aqui).

Aécio também defendeu uma reforma do Judiciário, com mandatos de doze anos para ministros do STF (Supremo Tribunal Federal), restrições a decisões monocráticas e idade mínima de 50 anos para os interessados em integrar a corte. Ele disse que apoiará impeachment de ministros do Supremo apenas em casos de “crime comprovado”. Eis a entrevista.

Por que o senhor decidiu mudar a rota e disputar o Senado por Minas Gerais?
É isso, mudança de rota. A vida pública também é feita de mudanças de rota, quando as razões justificam isso. Eu presido o PSDB num momento de reestruturação do partido. Eu acredito muito que o Brasil precisa de um partido de centro que dialogue com os extremos, mas que apresente um projeto para o Brasil, para o futuro. É esse PSDB que nós estamos revigorando: já tínhamos 13 parlamentares, estamos hoje com cerca de vinte, vamos passar de trinta nestas eleições, eleger alguns governadores importantes para apresentar um projeto para o Brasil em 2030, um projeto pós-polarização.

O que, de fato, fez o senhor recalcular essa rota?
Eu realmente tinha decidido ficar me dedicando exclusivamente a esse projeto. Mas os apelos que recebi em Minas, de lideranças políticas, da sociedade, empresariais, da vida mineira, me fizeram refletir: e se eu puder estar no Senado ajudando Minas num momento de dificuldades extremas pelas quais passa o estado? Minas vai precisar do Senado como jamais precisou em qualquer tempo. Se vivêssemos um tempo de bonança, de capacidade própria de investimento em todas as áreas, talvez essa relevância fosse menor. Agora, é vital termos uma bancada sólida no Senado. Com a experiência que tenho, com a articulação que construí a vida inteira, por já ter estado no Senado por oito anos, acho, sinceramente, que posso ajudar Minas Gerais a ter mais recursos, qualquer que seja o governador, para investir no que importa para as pessoas: saúde mais perto delas, segurança pública, infraestrutura. Nossas estradas estão em péssimo estado. É isso que me move.

A candidatura ao Senado também está ligada ao projeto de 2030?
Talvez o Senado, não nego, tenha sido uma das motivações, além do meu sentimento por Minas, para disputar essa eleição: acho que lá tenho condições de ajudar a construir esse caminho. Não necessariamente para liderá-lo, mas para ser parte importante dessa construção. O tempo é que vai dizer.

O senhor não descarta, portanto, uma candidatura à Presidência em 2030?
Meu avô Tancredo dizia que política, e sobretudo a Presidência, é destino, muito mais do que um projeto. Para ser candidato a deputado, a um cargo proporcional, ou até a governador, você constrói um projeto. Mas a Presidência é destino, como no caso dele: se elegeu presidente da República e não conseguiu tomar posse. Eu quero, no Senado Federal, ou na presidência do PSDB, ajudar a construir um caminho de centro para o Brasil.

Qual é o espaço que este “novo PSDB” pretende ocupar nacionalmente?
Eu acredito muito que o Brasil precisa de um partido de centro que dialogue com os extremos, mas que apresente um projeto para o Brasil, para o futuro. É esse PSDB que nós estamos revigorando.

O que significa, para o senhor, construir uma alternativa de centro?
O caminho é pelo centro: do diálogo, da construção, da convergência. Eu acredito nisso. Hoje a discussão é quem é o menos pior, e o brasileiro, infelizmente, está votando no anti-voto: ‘não voto no Lula, então voto no Bolsonaro’, ou o inverso.

E onde está o eleitor de centro nesse cenário?
O centro que vai decidir de novo. Esta eleição é pendular. Esse sempre foi o eleitor do PSDB, e é para esse eleitor que temos que voltar a falar. Quem conseguir diminuir a sua rejeição é quem vai ganhar a eleição. Mas o Brasil merece voltar a ter o voto do ‘sim’: sim a um projeto, porque tenho identidade, porque acredito. Hoje não estou vendo isso. Acho que as pessoas vão votar, ao menos em parte, naqueles que menos rejeitam.

O PSDB perdeu espaço para o bolsonarismo?
Ele deu espaço para o Bolsonaro surgir. Durante muito tempo fomos o contraponto ao PT. Uma disputa conceitual, e também mais elegante, sempre dentro das regras da democracia. O que ocorreu foi que, a partir de 2018, quando a candidatura do Alckmin teve baixíssimo desempenho, abriu-se espaço no Brasil para uma certa negação da política, e começaram a surgir os outsiders. O próprio João Doria não deixa de ser um outsider, que veio, como o Bolsonaro, com um discurso de negação da política, [dizendo] ‘eu não sou político tradicional’, e deu no que deu. Por isso, ao não termos uma candidatura presidencial competitiva, perdemos o espaço de iniciar a construção de um caminho alternativo. Não gosto muito do termo terceira via, mas é como as pessoas se acostumaram a chamar. Esse espaço acabou sendo ocupado pelo bolsonarismo.

O senhor faz uma autocrítica sobre o caminho percorrido pelo PSDB?
Existe, sim, uma autocrítica em relação ao que o PSDB se tornou. Reassumi a presidência do partido, já havia sido presidente lá atrás, exatamente no período em que fui candidato a presidente da República, porque acredito neste projeto. E acreditar nele passa pelo reconhecimento dos equívocos que cometemos. Hoje estou, digamos, juntando os cacos do PSDB. Já na última janela partidária fomos o partido que, proporcionalmente, mais cresceu.

O senhor é crítico à condução do governo de Romeu Zema?
É um governo sem realizações. Acho o Zema um sujeito de bem, correto, mas infelizmente não compreendeu o tamanho da cadeira de governador do Estado. Eu sentei ali. Ele não tem a força que tem o governador de Minas. Nas negociações da reforma tributária, por exemplo, nós temos interesses específicos: somos um estado minerador, somos um estado cafeicultor. Os interesses de Minas Gerais não tinham um interlocutor, uma autoridade constituída que pudesse negociar em nosso nome. Acho que passamos, nesse tema e em outros, levando menos do que poderíamos. Nesses oito anos, saímos do centro das grandes decisões. E quando Minas falta, isso pode parecer nostálgico e romântico para alguns, não é só Minas que perde. O Brasil perde. Minas sempre foi um ponto de equilíbrio entre estados mais ricos, como São Paulo, e estados mais pobres, como os do Nordeste, porque somos a síntese do Brasil. Temos regiões tão ricas quanto as mais ricas do país e tão pobres quanto as mais pobres. Isso sempre fez de nós uma referência de diálogo. Nós deixamos de fazer política, a verdade é essa. Talvez a minha candidatura seja a possibilidade de reorganizarmos e fortalecermos politicamente o estado.

Muitos candidatos ao Senado têm adotado como bandeira a reforma do Judiciário e defendido o impeachment de ministros do STF. O senhor se inclui nesse grupo?
Impeachment de ministros do STF é, constitucionalmente, uma responsabilidade do Senado, como o impeachment de presidente da República, que já tivemos, mais um recentemente, ou o impeachment de ministros de Estado. Havendo um fato que justifique esse processo, é óbvio que temos que avaliá-lo. Mas chegar ao Senado apenas com essa pauta é muito pouco. Não vou fugir, porém, da discussão sobre uma reforma do Judiciário, que considero necessária e urgente. Por exemplo: o excesso de decisões monocráticas. Acho que tem que haver uma limitação, porque muitas vezes elas enfrentam uma decisão congressual legítima do Legislativo. Defenderei, como já defendi em alguns momentos, um novo processo para a composição do Supremo, com mandatos de doze anos, e não mais a vitaliciedade. Aconteceu uma coisa no Brasil: antigamente, quando comecei na política, eram duas as pré-condições para alguém ser nomeado ministro do Supremo Tribunal Federal: notório saber jurídico e conduta ilibada. Agora entrou um terceiro fator, nos últimos anos, já a partir de um mandato anterior do Lula: a baixa idade. Quanto mais novo, melhor, para ficar quarenta anos no Supremo. Isso não faz bem a nenhuma instituição, ficar trinta, quarenta anos lá. Por isso me inspiro no modelo alemão: doze anos de mandato para ministro do Supremo, idade mínima de cinquenta anos me parece razoável. Acho que isso dá uma requalificada e permite que o poder excessivo do Supremo volte a padrões normais, retomando o que é fundamental na democracia: o equilíbrio entre os poderes.

O senhor seria favorável ao impeachment de um ministro do STF?
Seria uma certa leviandade minha, antes de chegar ao Senado, dizer que vou ‘caçar’ o ministro tal ou qual. O processo tem que chegar. Ele não pode ser um processo eminentemente político, uma vingança eleitoral. Vamos analisar, caso a caso, do ponto de vista técnico, como devemos fazer. Foi assim que a Dilma foi cassada, impedida: porque foi comprovado que cometeu crimes de responsabilidade e ponto, inclusive impedida por vários de seus próprios aliados. Acho que essa deve ser a conduta do Senado. Concordo que esse tema vai ser muito forte nas eleições, e que vai chegar lá uma bancada com o foco de tentar cassar quem considerem adversários. Eu estaria disposto a votar a favor do impeachment de alguém que tiver realmente cometido um crime comprovado. É essa a predisposição, sem uma postura pré-concebida na direção de quem quer que seja, com a qual eu chego.

Olhando hoje, em 2026, para o resultado das eleições de 2014, o senhor considera que aquele era o momento de o PSDB voltar à Presidência?
Fui para o Senado e construí uma candidatura presidencial que, infelizmente para o Brasil, me permito dizer, foi derrotada. Digo isso porque eu não invento mais as coisas: as pessoas sabem quem é o Aécio. Uns gostam, outros não gostam, o que é legítimo. Eu estava preparado, sinceramente, para fazer um governo transformador, sem me preocupar com curvas de popularidade. Seríamos outro Brasil hoje, equilibrado, com capacidade de investimento, e não como estamos vendo de novo, com o modus operandi do PT: a dívida bruta chegando a 82,5% do PIB, o governo da gastança desenfreada. Foram mais de 250 bilhões só nos últimos seis meses em benefícios que o governo do PT vem concedendo para tentar agradar setores da sociedade. E, se ganhar a eleição, o próprio governo vai herdar uma herança maldita criada por ele mesmo.

O senhor foi muito criticado por ter questionado o resultado do pleito à época, em um movimento de questionamento das urnas eletrônicas, que hoje encontra tração no bolsonarismo. O senhor se vê como um culpado para esse questionamento às urnas?
As eleições eletrônicas estavam em processo de afirmação. Começaram comigo na presidência da Câmara e com o ministro Carlos Velloso na presidência do Supremo. Depois vieram num processo de aprimoramento. Existiam muitos questionamentos, mas não sobre a legalidade ou sobre alguma fraude no processo. Eram falhas que existiam aqui e em outros lugares do país. Em comum acordo com o TSE, meses depois do resultado eleitoral, já com ela no mandato, pedimos uma auditoria para saber se o sistema era vulnerável, com doze especialistas, alguns de fora do Brasil. Era uma contribuição ao TSE, porque uma parcela da população, goste ou não, ainda tem dúvida. A conclusão foi que o sistema é inauditável, não é vulnerável. Não houve, portanto, questionamento ao resultado da eleição. Expressamos o sentimento de uma parcela da população que achava que o sistema funcionava mal em alguns lugares. Eu acredito nas urnas, acho que são uma evolução, mas não vejo mal nenhum em acoplar um voto físico, por amostragem, para mostrar que elas funcionam bem, como acredito que funcionam. Mas esse debate virou um tema proibido no Brasil hoje: se você defende essa evolução, é chamado de bolsonarista. Então não houve nenhuma contestação do resultado eleitoral, e não acho que essa contestação possa ter tido como origem 2014 — isso não passa de uma narrativa.

Faltou um reconhecimento público à vitória da então presidente Dilma Rousseff?
Às 20h30 do domingo da apuração, quando o TSE avisa, e nós assistimos por televisão, que a Dilma, que vinha atrás até os setenta e poucos por cento dos votos apurados, passa à frente… Dez minutos após a oficialização do resultado que a declarou reeleita presidente do Brasil, telefonei a ela no Palácio da Alvorada. Existe uma liturgia nas democracias: quando o derrotado assume a derrota, comunica ao vitorioso e o parabeniza. Ali está definido o resultado da eleição. Liguei para ela no Palácio da Alvorada, ela me atendeu e disse: ‘Pois não, candidato’. Quase respondi que não era mais candidato, havia acabado. Disse: ‘Presidente, estou ligando para cumprimentá-la pela vitória e estou à disposição para ajudá-la a reunificar o país, que sai muito dividido dessa eleição. Conte comigo para as melhores condições de governabilidade a partir de agora’. Ela não teve a delicadeza, quando falou mais tarde ao país, de fazer referência a essa ligação. Ali eu aceitei o resultado das eleições. Ninguém contesta o resultado das eleições cumprimentando a presidente eleita. Ali, para mim, acabaram as eleições.

O senhor afirma que as gravações da JBS, em 2017, tiraram o senhor e Michel Temer do jogo para a eleição presidencial de 2018. Hoje, olhando em retrospecto, como o senhor avalia aquele episódio e o impacto que ele teve na eleição seguinte?
Quando uma pessoa de bem é acusada, ela sofre injustamente, e sofre mais. Fui vítima de uma tremenda armação política, desmascarada pela Justiça, que me inocentou de todas as acusações, com objetivo claramente político, na minha avaliação. Eu e o Temer éramos, naquele momento de 2017, os dois nomes colocados para as eleições de 2018. Ele porque estava no exercício do mandato, depois do impeachment da presidente, sendo presidente da República. E eu, por ter tido a votação que tive em 2014, também era naturalmente cotado. Fomos vítimas daquelas gravações grotescas, num momento infeliz em que várias coisas foram ditas, de uma conversa privada. Eu me arrependo muito dos termos. Mas o objetivo de quem fez isso foi alcançado: eu e o Temer saímos do jogo, abrindo caminho para o retorno do PT. Não esperavam que surgisse um bolsonarismo nesse caminho.