A necessidade de um ajuste fiscal para equilibrar o ritmo de crescimento da dívida pública se tornou um consenso entre os especialistas em finanças públicas. Em relatório aos clientes, o economista-chefe da Warren Rena, Felipe Salto, afirmou que as projeções para o resultado das contas do governo entre 2027 e 2035 dependem diretamente da execução ou não de um pacote de medidas para conter o ritmo de elevação das despesas. Diante desse impasse, Salto e os economistas Josué Pellegrini e Daniel Ferraz consideraram três cenários.

No cenário base, duas medidas são incorporadas às projeções. A primeira é a troca da regra de reajuste do salário-mínimo — hoje corrigido por ganho real — por uma correção apenas pela inflação, válida a partir de 2028, com impacto direto sobre despesas previdenciárias e assistenciais vinculadas ao piso.

A segunda é o congelamento da remuneração dos servidores federais entre 2027 e 2030, período em que as despesas de pessoal cresceriam somente pelo efeito vegetativo das carreiras, sem reposição inflacionária até 2031 — quando a correção volta, sem compensar as perdas acumuladas. Ainda assim, Salto, Pellegrini e Ferraz calculam que o ajuste seria lento demais: o equilíbrio primário só viria em 2031, e a dívida pública continuaria subindo até 103,2% do PIB (Produto Interno Bruto) em 2035.

Regras vigentes
Já no cenário de inércia, os economistas apontam que nenhuma dessas providências seria adotada — o que equivaleria, na prática, a flexibilizar ou abandonar as regras fiscais vigentes, já que a alternativa seria comprimir as despesas discricionárias a um nível insustentável, sem conter os gastos obrigatórios nem reduzir benefícios tributários. Isso se manteria mesmo com a mudança trazida pela Emenda Constitucional nº 136, de 2025, que passou a excluir os precatórios do limite de gastos.

Nesse cenário, a equipe da Warren Rena projeta déficit primário crescente até 1,84% do PIB em 2035, e dívida pública que ultrapassaria 100% do PIB já em 2031, alcançando 114,5% em 2035.

Pacote mais amplo
Por fim, os economistas descrevem o cenário de ajuste, que soma às medidas do cenário base um pacote mais amplo, que seria executado de forma gradual entre 2027 e 2030. As medidas consideram a extinção do Abono Salarial, a mudança na regra de correção dos pisos mínimos de saúde e educação, corte pela metade das emendas parlamentares e redução da complementação da União ao Fundeb, de 23% para 19%.

Do lado da receita, eles propõem um corte de 23,5% nos gastos tributários em vigor, calibrado para elevar a receita líquida da União em cerca de 1 ponto percentual do PIB, sem repartir esse ganho com estados e municípios. Segundo Salto, Pellegrini e Ferraz, esse conjunto de medidas geraria superávit primário já em 2027 e levaria a dívida pública a um pico de 91% do PIB em 2029, com trajetória de queda a partir daí — a única das três rotas capazes de estabilizar o endividamento no horizonte projetado.