A ação militar ordenada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na Venezuela, com a prisão de Nicolás Maduro, serviu para acirrar os ânimos entre políticos de direita, mais alinhados ao ex-presidente Jair Bolsonaro, e de esquerda, defensores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Enquanto aliados de Bolsonaro comemoraram o ataque nas redes, lulistas acompanharam o presidente e condenaram a ação, queixando-se da interferência dos Estados Unidos na América Latina e questionando o interesse de Trump no controle do petróleo venezuelano.
Após o pronunciamento do presidente americano, deixando claro o interesse na exploração de petróleo, integrantes da oposição o defenderam falando da “franqueza” com que a direita trata os assuntos.
“Uma das diferenças da direita é a franqueza: Trump foi claro”, disse o líder do PL na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante (RJ), em um comentário marcando Trump na rede X.
Também nas redes, a ministra Gleisi Hoffmann (Relações Institucionais) aproveitou para fazer o contraponto com um rival regional, o governador do Paraná, Ratinho Júnior (PSD), que havia postado elogios a Trump “pela brilhante decisão de libertar o povo da Venezuela”.
“A euforia de Ratinho Junior e outros bolsonaristas com a invasão da Venezuela pelos EUA não tem nada a ver com defesa da democracia. Ao contrário, reflete o desejo de uma intervenção estrangeira no Brasil, contra a nossa democracia”, atacou Gleisi.
Pré-candidatos
Pré-candidato à Presidência da República, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), enfatizou a proximidade de Lula com Maduro e manifestou sua “torcida” para que Maduro, agora preso, “delate” o petista. O filho 01 do ex-presidente Jair Bolsonaro tem tentado relacionar Lula ao narcotráfico – justamente o motivo alegado por Trump para as ações militares contra a Venezuela.
Pouco antes de participar da primeira de duas reuniões de emergência que fez neste sábado com auxiliares, Lula se manifestou nas redes condenando o ataque à Venezuela, classificado como “inaceitável” e um “precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional”.
Governadores de direita que também almejam disputar a Presidência da República neste ano também se manifestaram.
Tarcísio de Freitas (Republicanos), de São Paulo, aplaudiu a ação americana, criticou Maduro e indicou uma possível derrota da esquerda nas eleições de outubro. “Uma ditadura não cai da noite para o dia. Ela corrói as instituições por dentro, pouco a pouco, e quem paga o preço mais alto é sempre a população. Que a prisão do ditador Maduro seja o primeiro passo no caminho da liberdade para a Venezuela”, disse Tarcísio, que também enfatizou a relação de Lula com o venezuelano.
O goiano Ronaldo Caiado (União Brasil) disse que foi um dia de “libertação do povo venezuelano, oprimido há mais de 20 anos pela narcoditadura chavista” e o mineiro Romeu Zema (Novo) afirmou torcer para que a queda de Maduro “sirva para que o povo venezuelano finalmente reencontre paz, estabilidade e o caminho do desenvolvimento”.
O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSD), foi mais moderado. Disse que “o regime ditatorial de Maduro é inadmissível”, mas condenou o método usado pelos Estados Unidos. “O regime ditatorial de Maduro viola direitos humanos, sufoca liberdades e impõe sofrimento ao povo venezuelano. No entanto, a violência exercida por uma nação estrangeira contra outra soberana, à margem dos princípios básicos do direito internacional, em especial o de não intervenção, é igualmente inaceitável”, acrescentou.
“Devemos fortalecer a luta contra o narcoterrorismo que assola o continente”, defendeu o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), pré-candidato ao Senado.
Batalha de narrativas
Um levantamento da consultoria Bites contabilizou 7,9 milhões de menções ao bombardeio americano nas horas seguintes à notícia, até as 10h30 as 10h30 da manhã de sábado. Ao longo do dia, o número de menções continuou crescendo. Nas primeiras horas da manhã, 395 mil menções foram em português – pouco mais de 10% das menções em inglês e em espanhol, as duas línguas que, por motivos óbvios, concentravam o debate sobre o assunto.
Políticos influenciadores digitais da direita dominaram o ambiente das redes, com destaque para Eduardo Bolsonaro (PL-SP), Pablo Marçal (PRTB) e o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG). Lula foi o destaque na esquerda, com sua declaração condenando o ataque. Não houve muitos perfis fazendo defesa de Maduro.
Para o cientista político Antônio Lavareda, especialista em comportamento eleitoral e marketing político, a ofensiva americana é um fator novo que terá muita influência nas eleições brasileiras. “Desde o tarifaço que o Donald Trump irrompeu no radar da cena política brasileira de 2026. Ele teve a aproximação com Lula e, agora, o episódio da Venezuela tende a fazer com essa influência se prolongue. Nós estamos diante de uma série da qual assistimos o primeiro capítulo neste sábado”, diz.
