A sensação de estar assistindo a um programa de TV no horário eleitoral gratuito permeou o evento "Brasil dando a volta por cima", promovido pela Secom (Secretaria de Comunicação) da Presidência da República. Com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a apresentação do balanço do governo, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, em Brasília, parecia um programa de TV, só que ao vivo.
O evento começou com a exibição de uma sequência de vídeos produzidos sob a batuta do ministro Sidônio Palmeira, bem na estética de campanha, com pessoas fazendo coraçãozinho com as mãos, imagens de portos funcionando, de colheitadeiras jorrando grãos no campo e famílias felizes com programas sociais do governo. Em seguida, testemunhos como os exibidos nos vídeos passaram para o palco: pessoas escolhidas pela produção contaram suas histórias de superação, graças à persistência deles e, claro, com aquela ajuda dos programas sociais implantados por Lula. Teve, por exemplo, personagem que passou pelo Bolsa Família e se tornou empresário, um apelo pouco sutil para um governo que tenta o diálogo com os chamados empreendedores.
O teleprompter de Lula
Lula assistia a tudo da plateia, na primeira fila, bem no meio do auditório, ao lado da primeira-dama, Janja. O presidente era cercado por todos os ministros, líderes do governo e parlamentares aliados. Nada de cadeiras em cima do palco, como sempre ocorre nos eventos presidenciais. Os apresentadores exibiram frases sobre os feitos do governo, com o cuidado de dimensionar tudo: mostraram que o governo tira "um estado de futebol por dia" de pessoas da mapa da fome, ou cria "36 mil salas de aulas" lotadas de beneficiários do programa "Pé-de-meia".
Diante de toda parafernália publicitária, aquela que seria a grande estrela do dia não brilhou. Lula, um mestre no improviso, fez um discurso certinho, lido, alternando o olhar entre dois terminais com teleprompter, uma formalidade incapaz de se contrapor às pesquisas que demonstram a cada dia a perda de aprovação de seu governo. O som baixo do microfone e a voz extremamente rouca fez com que boa parte dos presentes não entendessem o discurso.
Algumas pessoas recorreram a fones de ouvido para acompanhar o discurso, transmitido em canais nas redes sociais. Por mais que o conteúdo da fala de Lula apontasse para a arrumação da casa nos dois primeiros anos do governo, e que projetasse otimismo em relação ao futuro do país, faltou vigor do presidente. Lula passou a mensagem de que "o Brasil voltou a sonhar" e que tem "condições de deixar de ser o eterno país do futuro para nos tornarmos, de fato, o país do presente", mas leu essas frases em uma voz monocórdia, passando a impressão de desânimo.
Sidônio explicou que a ideia do discurso lido era para se ter um evento com apresentações bastante pontuais, sem se tornar enfadonho. E se corrigiu, em seguida, para rechaçar a ideia de que Lula, no improviso, pudesse se tornar cansativo. "Um evento como esse não tem que ficar enfadonho", disse. "Isso não quer dizer que o presidente não fará discursos de improviso, o que ele faz muito bem".
O ministro da Secom, ao final, defendeu a necessidade do evento para que o governo comunicasse seus feitos, mas disse também que não pretende adotar esse formato como rotina. Ao descartar a ideia de que o evento tivesse um caráter eleitoral, afirmou que o objetivo não era combater a queda na popularidade do presidente e, sim, informar o que o governo está fazendo em prol da população. "Eu não estou muito preocupado em saber se a popularidade do presidente Lula melhorou ou não melhorou. Eu tenho um objetivo muito claro: é fazer com que essas informações e essas ações do governo possam chegar à grande maioria da população", disse o ministro.