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Ata do Copom: sem ajuste fiscal e com mais crédito, Brasil precisará de juros maiores

Pela avaliação dos diretores do BC, o caminho escolhido pelo governo de esmorecer nas reformas estruturais e na disciplina fiscal e, ao mesmo tempo, elevar o crédito aumenta o custo para desinflacionar a economia

Foto:Raphael Ribeiro/BCB
Foto:Raphael Ribeiro/BCB

A dificuldade do Banco Central em convencer analistas, economistas e investidores de que a inflação vai cair de cerca de 5% para 3% ao ano até o final de 2026 deverá fazer com que o Brasil siga entre os países com maior taxa de juros no mundo, apesar das críticas do próprio governo e do PT, partido do presidente Lula. Na avaliação dos diretores que integram o Copom, o comitê que define o rumo da política monetária no país, a chamada taxa de juros neutra - patamar que permite equilibrar crescimento com inflação sob controle e geração de emprego - deverá subir, aumentando o custo do país para desinflacionar a economia.

Segundo os diretores, esse cenário é considerado “deletério” para a economia. Ironicamente, ele também é fruto da estratégia oficial para tentar reverter a baixa popularidade do governo nas recentes pesquisas de opinião pública e que combina “esmorecimento no esforço de reformas estruturais e disciplina fiscal, aumento de crédito direcionado e as incertezas sobre a estabilização da dívida pública”.

Esses são justamente os três pontos citados na ata da última reunião do Copom como fatores que elevam os juros neutros da economia e minam a potência da política monetária, principal instrumento à disposição do BC para reduzir o ritmo de crescimento da economia e o nível da inflação corrente.

O documento destaca que, durante o debate na semana passada, quando decidiram aumentar em mais um ponto percentual, para 14,25%, a taxa Selic, referência para economia, e sinalizar nova alta de menor magnitude na reunião prevista para maio, os diretores deixaram claro que a dificuldade de coordenar as expectativas dos agentes econômicos sobre a trajetória futura da inflação no Brasil segue retroalimentando alta de preços dos ativos e, também, a própria inflação.

“No período recente, a percepção dos agentes econômicos sobre o regime fiscal e a sustentabilidade da dívida seguiu impactando, de forma relevante, os preços de ativos e as expectativas dos gentes”, alerta a ata. Segundo os diretores, “as expectativas de inflação, medidas por diferentes instrumentos e obtidas de diferentes grupos de agentes, elevaram-se novamente em todos os prazos, indicando desancoragem adicional e tornando assim o cenário de inflação mais adverso”.

Desconforto
O documento ressalta que “a desancoragem das expectativas de inflação é um fator de desconforto comum a todos os membro do Comitê e deve ser combatida”. Esse sentimento fica claro ao longo de todo documento com reiterados destaques para o fato de que “ambientes com expectativas desancoradas aumentam o custo de desinflação em termos de atividade” e que “o cenário de convergência da inflação à meta torna-se mais desafiador com expectativas desancoradas para prazos mais longos e exige uma restrição monetária maior e por mais tempo do que outrora seria apropriado”.

Para o BC, a inflação de curto prazo segue alta, apesar de os diretores já vislumbrarem sinais de redução do crescimento econômico. Segundo a ata, os dados dos últimos meses mostram sinais de “incipiente moderação do crescimento”. O ambiente externo, o Copom analisa como “desafiador em função da conjuntura e da política econômica dos Estados Unidos, principalmente pela incerteza acerca de sua política comercial e seus efeitos”.

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