A Ferrogrão não vai calar a voz de quem protege a Amazônia

A imagem de Luiz Inácio Lula da Silva subindo a rampa do Planalto ladeado por lideranças indígenas em 2023 correu o mundo como um pacto do Brasil com os povos originários. Mas, em 2026, esse pacto corre o risco de ficar sob o peso de trilhos de ferro. Porque a Ferrogrão (EF-170) não é um projeto de infraestrutura, mas um projeto de invasão que ignora a Amazônia e silencia o direito de escuta de quem realmente protege a floresta.
Em fevereiro de 2026, entretanto, recebemos um sopro de lucidez vindo do Tribunal de Contas da União (TCU). A área técnica do órgão recomendou a suspensão imediata do processo. O motivo? O de sempre: falhas graves na viabilidade socioambiental e um desrespeito flagrante ao direito de escuta. O agronegócio, em sua pressa voraz para escoar soja, tenta atropelar a nossa existência.
Estudos públicos da UFMG, do IPAM e do INESC são contundentes e apontam que a ferrovia pode desmatar uma área equivalente a cem Parques Ibirapuera-SP (mais de 2 mil km²). Além disso, a sobrecarga no Rio Tapajós e as hidrovias previstas sufocarão a vida aquática. Para os povos Munduruku, Kayapó e Panará, o rio é sustento e ancestral. Sem o peixe, resta o mercúrio e a fome. São seis terras indígenas e 17 unidades de conservação na mira dos trilhos.
O governo e as empresas insistem no rito das “audiências públicas” como se fossem um selo de aprovação democrática. Para nós, no entanto, essas reuniões em auditórios urbanos, longe das aldeias e repletas de termos técnicos inacessíveis, são apenas um simulacro de participação. O direito de consulta, garantido pela Convenção 169 da OIT, exige que a escuta seja prévia, livre e informada. O que vemos é o contrário: o projeto avança e nós somos chamados apenas para ouvir o barulho do martelo batendo o leilão.
Estamos em um ano eleitoral decisivo. É o momento de cobrar coerência de quem subiu a rampa com o cocar na cabeça em 2023. A mensagem das comunidades indígenas é absoluta: nós não queremos audiências públicas para negociar o tamanho do estrago. Nós queremos que a Ferrogrão não venha ameaçar a nossa existência.