Em poucos meses, Brasília ouviu versões muito diferentes sobre o BRB. Sólido, ameaçado de parar, enfrentando crise de capital e liquidez, submetido a uma corrida por recursos e, novamente, sólido. A contradição não está no BRB, patrimônio de Brasília. Está nos discursos de quem hoje dirige o banco e de quem exerce seu controle.

Em 2025, antes da crise, o BRB vivia forte expansão. Terminou 2024 com R$ 61 bilhões em ativos e R$ 43,1 bilhões em crédito. Ao final do primeiro semestre de 2025, eram R$ 74,5 bilhões em ativos e R$ 59,4 bilhões em crédito. Ao divulgar esses resultados, o próprio BRB afirmava que esse crescimento ocorria “sem comprometer a solidez da posição de liquidez”.

Era também o período da tentativa de aquisição do Banco Master, defendida pelo BRB e apoiada pelo governo do Distrito Federal. Depois, o Banco Central rejeitou a aquisição, o Master foi liquidado e operações entre as instituições passaram a ser investigadas.

Em janeiro de 2026, o novo presidente afirmou que “o BRB é sólido, não vai quebrar” e que a liquidez estava controlada. Pouco mais de um mês depois, advertiu que, sem medidas de fortalecimento patrimonial, “do ponto de vista regulatório, o banco para de funcionar”.

Entre um banco sólido e outro que poderia parar existe uma distância a ser explicada.

Vieram então sucessivas soluções. Primeiro, imóveis públicos e fundo imobiliário. Depois, securitização de créditos do DF, parte dos recursos também destinada ao orçamento do governo. Em abril, houve anúncio de captação de R$ 3 bilhões via Depósito a Prazo com Garantia Especial (DPGE), que daria fôlego à liquidez, mas sem representar capital novo.

No mesmo mês, foi anunciado acordo com a Quadra Capital para transferir R$ 15 bilhões em ativos originados do Master, com previsão de R$ 3 bilhões a R$ 4 bilhões à vista. Em julho, as negociações foram encerradas sem que esses recursos fossem transferidos. Agora, a principal alternativa é uma operação de R$ 6,6 bilhões que depende da participação do Fundo Garantidor de Créditos, o FGC, mas a audiência no STF terminou sem acordo e persistem as dificuldades para obtenção das garantias.

Enquanto mudam as soluções, muda também o diagnóstico.

Em abril de 2026, o presidente reconheceu uma “crise de capital e de liquidez” e afirmou que o BRB ficaria, no mínimo, um terço menor, voltando a um tamanho adequado para “desenvolver Brasília e região”. Era uma inversão de estratégia: o banco que comemorava sua expansão nacional agora precisava encolher.

Em junho desse ano, o presidente reconheceu uma “corrida de liquidez” e informou R$ 21,9 bilhões em créditos originados do Master e provisionamento estimado em R$ 8,8 bilhões.

Dias depois, a governadora apresentou diagnóstico diferente: “O BRB se mostrou um dos bancos mais sólidos do país”.

Liquidez, capital e solvência são conceitos distintos. Mas uma instituição que precisa de bilhões e enfrenta corrida por recursos precisa demonstrar quais indicadores sustentam tamanho otimismo.

Recentemente, o presidente voltou a afirmar que “o BRB é um banco sólido”. A governadora, depois de classificá-lo entre os mais sólidos do país, declarou: “O balanço não pode ser publicado antes de pegar o empréstimo, senão o banco é liquidado”.

Em junho de 2025, um dos bancos mais sólidos do país. Em agosto de 2026, um banco que, sem empréstimo, poderia ser liquidado.

O FGC afirmou não dispor dos balanços de 2025 e do primeiro semestre de 2026, considerados essenciais para analisar a operação. Se nem quem avalia uma operação bilionária dispõe das demonstrações atualizadas, em quais números se apoia a segurança transmitida sobre o banco?

Há outra questão. Se o BRB ficará pelo menos um terço menor, onde está o plano para adequar sua estrutura? Quais despesas serão revistas? Que negócios continuarão estratégicos? Qual será a meta de eficiência? Conhecemos muito mais sobre o dinheiro buscado fora do BRB do que sobre as medidas internas para construir um banco menor, mais eficiente e capaz de voltar a gerar capital.

Não se trata de afirmar que o BRB esteja quebrado. Preservá-lo interessa a Brasília. Mas, por ser público, a sociedade tem direito de conhecer sua situação, o custo da recuperação e o projeto para seu futuro.

Quem hoje dirige o BRB e quem comanda o GDF não responde automaticamente por decisões anteriores. Mas responde pela condução atual. A direção responde pelo banco; o governo, como controlador. A herança pode ser de outros. A responsabilidade pela condução atual, não.

Os atuais dirigentes podem não ser responsáveis por colocar o BRB nessa situação. Mas serão responsáveis por não tirá-lo dela.

O problema é que banco vive de confiança, e confiança não combina com discursos que oscilam entre solidez e risco de liquidação nem com soluções que não se concretizam. Essa dualidade contraditória no comando começa a atingir justamente o ativo mais difícil de recuperar: a credibilidade. E quando a credibilidade começa a faltar, o problema deixa de estar apenas nas contas do banco e passa a revelar algo ainda mais grave: uma crise de confiança no comando da instituição financeira.

Valdir Oliveira é ex-secretário de Desenvolvimento Econômico do Distrito Federal